Ninguém discursa, sobre o que lhe é nebuloso; logo, conforme lecionava o filósofo PLATÃO de Atenas, antes de tudo o mais devemos buscar conhecer, conceituando e definindo, nosso objeto de estudo: as “virtudes”, ou apenas “virtude”.
Sua raiz procede do Latim “vis-” que está a nos apontar para algo firme e forte, porquanto significa “homem; virilidade; marido; soldado de infantaria; cabeça; varão; etc.”. Daquela raiz deu, em Português, “virago; virar; viril; vírus” e, finalmente, “virtude”. Isto posto “virtude” é um termo que transporta consigo a ideia de “força; esforço; potencialidades”, qualidades ligadas ao que é masculino.
Contudo interessa-nos analisá-la não mera nem exclusivamente deste ponto de vista exclusivamente físico mas sim do moral, qual seja, do comportamento virtuoso, das atitudes contrárias às ações viciosas, ou melhor, do ponto de vista a partir do qual se visualiza a corrupção pelos desregramentos habituais-prejudiciais, geradores de patologias graves, capazes de nos conduzir a condições deploráveis ou à morte.
Do acima resulta que, para ser-se virtuoso moralmente, ou puro, o ser-homem, ou o ser-espírito reencarnado, deverá, antes, armar-se com sua força de vontade moral a fim de poder lutar contra:
1º) O que possa intoxicar e corromper sua saúde física; e 2º) O que possa intoxicar e corromper sua saúde espiritual..Entendemos então, a partir daqui, que a virtude é integral por cuidar do corpo e da alma.
Num mundo como a Terra, onde o mal predomina, as virtudes são consideradas como qualidades morais raras e, diga-se, não seriam raras se não fossem boas, e entendemos como “bom” tudo quanto aumenta a quantidade de vida, fazendo com que seja a força vital “mediante a qual cada coisa se esforça por perseverar em seu ser” – conforme o filósofo SPINOZA –, advindo disto a bondade se encontrar atrelada à Ética.
Por princípio e definição toda virtude encontra-se entrelaçada ao que é um bem, bom, belo, justo, verdade, etc.; enfim, aos dons da alma que ainda subjazem em potência a fim de serem atualizadas no ser-homem, enquanto todo vício encontra-se entrelaçado às paixões sensoriais. Escusado dizer o quanto nem sequer observamos a menor delas, a gratidão, reconhecimento ao benefício recebido, pois, contrariamente, retribuímo-la com o vício da não-correspondência: a ingratidão.
Vícios morais não nos doem fisicamente como os abalos sensoriais, mas sim afetivamente como as “dores morais”; estas muito mais difíceis de serem tratadas por se manifestarem como “dores da alma” cuja medicação somente poderá ser o perdão das ofensas para que os seus atingidos não adoeçam na depressão ou no orgulho das suas mais caras emoções feridas caso neles predominem a introversão ou a extroversão.
Tais considerações tornam-se importantes porque nos indicam a virtude como sendo uma variante do único sentimento, o amor, porque se a ação amorosa é, primeiramente, para fora de si, a ação virtuosa é, por sua vez, a valorização da força espiritual em detrimento da corporal-particular. Ora, isto faz com que adiantemos que adversários das virtudes são basicamente três, três raízes passionais originárias de todas as demais: egoísmo, orgulho, e vaidade. Consequentemente, enquanto a virtude, por ser amorosa, é centrífuga, isto é, voltada para qualquer outro, ou o irmão, aquelas três são, ao contrário, centrípetas, porquanto somente voltadas para o eu mesmo, ou o não-irmão.
A virtude é um bem tanto para o ser-agente quanto para o ser-percipiente, pois sua essência é o Bem, posto ninguém poder ser virtuoso e, simultaneamente, ser mau. Depreende-se, então, que as pessoas virtuosas só realizam o Bem em suas existências. Elas são humildes de espírito; amáveis para com todos; solidárias principalmente nas dores; e fazem um tudo a fim de serem felizes tornando, antes, os outros felizes. Eis porque a virtude é rara: porque sendo boa em si mesma possui luz própria.
Para obtê-la o ser ainda não virtuoso deverá reconhecer a verdade da virtude e se esforçar não poucamente, implicando esse esforço em, logo de início, domar suas más inclinações inatas e adquiridas. Em suma estabelecer um estado de dificílima e permanente guerra íntima travada no território do interior de si mesmo, por ser travada contra si próprio: se falacioso, honesto; se sedutor, honrado; se mentiroso, verdadeiro; se luxurioso, pudico; se preguiçoso, industrioso; se violento, pacificador; se injusto, imparcial; se orgulhoso, humilde; se impiedoso, humano; se egoísta, caridoso; se vaidoso, modesto; se glutão, frugal; ... BUDA, CONFÚCIO, SÓCRATES, PLATÃO, JESUS-CRISTO, MARIA de Nazaré, MARIA de Magdala, AGOSTINHO, FRANCISCO de Assis, TOMÁS de Aquino, THOMAS MORE, SPINOZA, KANT, etc., foram seres humanos virtuosos.
Em seu formoso livro “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, o filósofo francês contemporâneo ANDRE COMTE-SPONVILLE discorre elegantemente sobre elas e nos exorta a sermos virtuosos: “Se a virtude pode ser ensinada, como creio, é mais pelo exemplo do que pelos livros. Então, para que um tratado das virtudes? Para isto, talvez: tentar compreender o que deveríamos fazer, ou ser, ou viver, medir com isso, pelo menos intelectualmente, o caminho que daí nos separa. Tarefa modesta, tarefa insuficiente, mas necessária”, diz-nos em seu Preâmbulo.
Bastante contrário ao que se poderia pensar, a calma, a mansuetude, a paciência, e a tolerância, não são qualidades pálidas nem desbotadas mas sim conquistas inabaláveis do espírito forte porque conseguir vencer a si mesmo. São virtudes que, como todas as demais, encontram-se ao alcance de qualquer um.
Pugnar contra o adversário é fácil, basta-nos a destreza muscular, entretanto necessitamos da coragem inteligente do autoconhecimento para lutarmos contra nossas más tendências.
Em seu belo livro “O Homem Integral”, o Espírito JOANNA DE ÂNGELIS, na psicografia do médium DIVALDO FRANCO, ensina-nos que somente se autoconhecendo poderá o espírito evoluir durante a sua curta estadia na presente reencarnação.