Dela, atualmente, muito se fala, mas dela, infelizmente, pouco se sabe e, para sabermos, teremos que buscar suas fontes. O termo “ética” deriva do Grego “etos-ous” e significa “costume"; "modo de ser"; "caráter"; por isso foi frequentemente definida como sendo a “doutrina dos costumes”. Quando traduzida para o Latim deu "mos-ris” e, quando vertida para o português, deu “moral”. Na ciência filosófica tornou-se a disciplina que trata do nosso modo de agir, isto é, no “como” agimos uns com os outros, logo vindo a ser "comportamento"; "regra"; "lei". Foi assim que a Ética veio a ser aceita como princípio regulador das nossas atitudes, de quaisquer atitudes, e foi didaticamente dividida em:
1º) Ética, como teoria da conduta humana do ponto de vista do bem ou do mal; e
2º) Moral, como sua prática.
Simples assim.
Vamos agora ao passo motivador da nossa tese: as religiões tradicionalistas têm uma ética? Sim. Se a têm, então qual é? Cumprir, na prática, a teoria divina, qual seja, as leis de DEUS lavradas nos Dez Mandamentos.
Todavia qual é a garantia prática para nós, seres humanos-espirituais, de no presente os cumprirmos se no futuro iremos desaparecer pelo fenômeno inexorável da morte? Disto se segue: em qual ética, exatamente, estamos apostando? Ora, se ao menos não houver a certeza de um porvir para a alma, então até mesmo aquela ética divina – e máxima, porque proveniente do próprio Criador – de nada nos terá valido. Consequentemente não apenas aquela ética, mas qualquer exercício ético que não vise superar a precariedade da forma material transitória de qualquer coisa que, por ser transitória, não deve nem pode fazer nos aferrar a ela por ser, exatamente, efêmera. Caso ajamos ao inverso estaremos agindo de conformidade com as escolas materialistas-sensualistas. Assim sendo o cultivo da ética nos conduz às virtudes, ao esforço íntimo da alma em superar seus próprios interesses imediatos e, no limite, superar suas paixões, todas oriundas das necessidades corporais. No limite a Ética é o movimento da alma que representa a vontade da transcendência humana.
Isto posto, ser ético-virtuoso será saber se utilizar das coisas materiais, principalmente das esteticamente prazerosas, não como fins em si mesmas mas como meios; não será desejá-las mas sim servir-se delas, e não será amá-las mais do que se ama a alma que lhe é superior por ser a parte humana imortalista. Em suma será fazer um bom uso de tudo quanto DEUS colocou ao nosso dispor para sobrevivermos, mas não atingir o extremo do abuso que nos gera doenças as quais diminuem o que, em Filosofia, passou a ser conhecido como “conatus”, ou o nosso ímpeto, impulso, potência, força, capacidade de operar, de ser, de existir, e de continuar perseverando em existir tal como somos, segundo o eminente pensador BARUCH DE SPINOZA em sua formidável “Ética; III; Proposição VI”. Destarte temos que saber se vale a pena ser ético-virtuoso, considerando a hipótese moral – ainda não testada por aquelas arcaicas religiões – da existência da vida “post-mortem”.
Julgo haver posto, do modo acima, os fundamentos da Ética na realização da continuidade da vida depois do passamento, e disso decorre que não pode haver nenhuma ética, sequer a religiosa, sem a certeza da continuidade vital da alma. A Ética dependerá disto.
Aquelas religiões milenares dão-nos ao menos uma prova evidente da sobrevivência da alma? Não. Como vemos não basta falar, do púlpito ou não, porque a nossa intuição sensível está ainda a exigir apenas uma demonstração, uma só! Mas, desditosamente, nada possuímos para exibir, mesmo considerando o transcurso de quatro mil anos de religiosidade. Que lástima! O único exemplo histórico-bíblico seria o do retorno de JESUS CRISTO, contudo de nada nos vale apelar para ele porque sua natureza não se enquadra na do homem comum mas sim na de DEUS, conforme todas as religiões nos ensinaram e ainda estão a nos ensinar. Todas, exceto a religião espírita para a qual o “Nazareno” sempre foi um homem de carne, sangue, e osso, porquanto nascido duma conjunção carnal como nós, caso contrário DEUS estaria derrogando Suas próprias leis e tornando-se, portanto, antiético, o que seria um absurdo lógico!
O problema ficou complexo? Sim e não: “sim” porque as igrejas nunca nos oferecerem uma prova racional da imortalidade da alma; e “não” porque:
1º) Desde o século 19, precisamente 1848 – uma demarcação antropológica –, tal prova prática foi posta ao alcance da Humanidade pelos fatos ocorridos no Condado de HYDESVILLE, Estado de NEW YORK/USA; e
2º) Desde 1857, na cidade de PARIS/FRANÇA, sua teoria se deu com o lançamento d’“O Livro dos Espíritos” pelo insigne mestre de LYON, ALLAN KARDEC.
“Sim, agora sim”, afirmamos, é possível uma ética religiosa, caso contrário imperariam no mundo as leis do “mais forte” e do “mais esperto”, o que significaria o fim de toda e qualquer civilização.
Reafirmamos, portanto, que o princípio garantidor da Moral é a sobrevivência da alma, e isto significa que DEUS interfere no mund; que DEUS, ao criá-lo, criou-o com leis inderrogáveis e, dentre estas, as das desencarnação e sobrevivência do espírito. Se a existência da hipótese contrária fosse verdadeira – a criação de um mundo sem ética –, então a humanidade não se sustentaria, reitero, pois seria indiferente vivermos ou não sem nos respeitarmos porque seria indiferente ou não vivermos para sempre: aniquilar-nos-íamos em breve tempo.
Conclusão: uma ética para as religiões enquanto em vida só é possível por ser fundamental uma moral depois da morte. Ninguém, sequer alguma religião, sobrevive sem ética, nem os bandidos nas ruas nem os corruptos de colarinho branco em seus gabinetes, mas a Ética sobrevive por si mesma pois é de natureza divina e, por isto, possui brilho próprio, como a verdade, diante da qual cessam todas as controvérsias.
Eis a ética espírita: “Nascer, viver, morrer, renascer ainda, progredir sempre, tal é a lei”.