Não padece incerteza alguma quanto ao respeito da sociedade pelo Espiritismo, indubitavelmente pelos princípios éticos-cristãos deste; mas, se hoje a Grande Doutrina é respeitada, cumpre historiar nem sempre ter sido assim, porquanto a Igreja Católica tem-no atacado desde o seu surgimento com o “O Livro dos Espíritos”, sua obra de base, lançada em 1.857, em PARIS/FRANÇA, por ALLAN KARDEC.
Tais agressões começaram em 1.865 com o Cardeal de REIMS/FRANÇA, Mons. GOUSSET, o qual se pôs a acusar o Moderno Espiritualismo nestes termos: “os misteriosos seres que acodem aos apelos dos heréticos não são enviados por DEUS nem pelos Apóstolos da Verdade porque são agentes do Inferno”.
Tolices à parte, visto aquele padre desconhecer o tema do qual vociferava, torna-se necessário raciocinar que, ainda hoje pensando do mesmo modo, a Igreja dominante não admite a vinda dos Anjos compassivos em socorro das almas transviadas! Logo, para que servem suas virtudes? Para se comportarem egoisticamente, deixando morrer na miséria o mendigo que bate às suas portas? Eis aonde nos leva a consequência de se pensar desta maneira, pois: se nada ocorre sem a permissão de DEUS, pois tudo depende de Sua vontade, então o Sumo-Bem faculta aos Anjos não nos ajudar, mas, pelo contrário, permite aos Demônios nos prejudicar. Destarte, conforme o dito clérigo, só nos resta concluir: o Criador estaria facilitando a ação dos Demônios em fazer perder os homens!
Contudo no Espiritismo ocorre exatamente o contrário daquela investida injuriosa: são os Bons espíritos que vão em busca dos sofredores. Porém se considerarmos os Bons Espíritos como sendo os “Agentes do Inferno”, então cumpre ressaltar que estes estão fazendo o trabalho jamais feito pelos Anjos, qual seja, o de reconduzir os homens a DEUS, pois os que nunca oraram agora o fazem, e os que eram orgulhosos, egoístas, e devassos, agora se tornaram humildes, caridosos, e recatados! Sinal evidente de que os “Demônios” têm prestado melhor serviço ao Pai DEUS do que os Anjos.
É preciso pensar muito mal da inteligência humana para crer que o homem moderno ainda aceite cegamente tais excessos religiosos totalmente contraditórios, já que não será com a emissão de insultos dirigidos à Terceira Revelação que o Espiritismo deixará de existir, mas sim, com argumentos convincentes e superiores aos demonstrados por ele. Que venham, estamos preparados.
Se os Catolicismo e Protestantismo, duas religiões tradicionais dos nossos tempos, apregoam que “DEUS nos enviou seu filho JESUS para salvar os homens”, então como agora se explica que os deixe morrer no abandono? DEUS teria fracassado em Seu projeto? E o que dizer dos que nasceram antes e depois de JESUS sem terem tido a oportunidade de poderem tê-lo ouvido? Ora, convenhamos: se DEUS no-lo enviou, então por qual motivo justo não nos poderia enviar outros tantos novos Mensageiros a nos ensinar a Verdade – e digo “VERDADE” em seu sentido forte –?
Quando os Espíritos superiores chegaram, o que fez o Catolicismo? Repudiou-os ao tachá-los como “Demônios”. Mas os fariseus também disseram o mesmo, que o CRISTO fazia o bem pelas artes de Satanás, dando assim ensejo à histórica resposta do nosso Irmão Maior: “Reconhece-se a árvore pelos seus frutos” (Mt 12:33). Desta solução crística redunda que, se o Espiritismo não for de DEUS, então desaparecerá por si próprio por não haver alguém que se alimente de frutos maus.
Outra acusação do Cardeal foi: “é indigno dos Mensageiros Celestiais ocuparem-se com mesas para transmitir suas instruções aos homens”. “Ora”, refutou-lhe KARDEC, “JESUS não nasceu num estábulo? Não foi de lá que surgiu a palavra transformadora do Cristianismo? Pois, do mesmo modo, das mesas – primeiro meio de comunicação dos Espíritos –, surgiu a Doutrina Espírita demonstrando a sobrevivência da alma e desmentindo as existências dos Céu e Inferno, porquanto o mundo espiritual não é tal como nos foi ensinado durante mais de Dois Mil anos”. Estude o leitor as Obras Básicas do Espiritismo para saber disto.
A Igreja jamais negou as manifestações espirituais, apenas as atribuiu – erroneamente – aos Demônios. Mas, curiosamente, para os seus ataques não pôde sequer se valer do Novo Testamento(1) – seu exclusivo livro de apoio – exatamente por causa da insuficiência deste, uma vez que JESUS jamais pronunciou contra elas. Então, a contragosto – diga-se de passagem –, pois sem alternativas disponíveis, teve que correr para buscar aqueles recursos no Antigo Testamento(2), única obra na qual consta a proibição da evocação dos mortos, conforme mencionado em Lv 19:31 e 20:27; e Dt 18:10-12. Todavia, se MOISÉS as proibira, então elas eram reais e, assim sendo, na medida em que as proibia, confirmava-as, demonstrando-nos mais uma vez ser impossível zombar da verdade.
De nossa parte lamentamos tantas agressões gratuitas porque se torna preciso haver jogado fora a inteligência para se adotar tantas contradições! Afinal, se a Lei Mosaica deve ser tão rigorosamente observada – afinal tal ponto, tal proibição, consta em dois dentre os cinco livros da “Torá”(3) –, então por que não é também tão seguida em seus outros pontos? Somente assim ela poderia ser consequente do início ao fim, mas não o é. Explico-me: se a antiga Lei não está mais de acordo, em certos casos, com a nossa época nem com os nossos costumes, então nossa razão, pelo mesmo motivo, procederá com relação àquela proibição: ela não se aplica mais em nossos dias.
Naquela época sentenciava-se com a pena de morte por não haver prisões nem casas de correção no deserto do Sinai, mas hoje conviria, por consideração às leis promulgadas por MOISÉS, manter a pena de morte aos espíritas? Os espíritas, por sinal, somente evocam os Bons espíritos quando necessário, pois, na maioria das vezes, eles vêm naturalmente até nós. Se for assim, então os católicos e protestantes seriam os primeiros a serem sacrificados, pois orar a JESUS não é o mesmo que evocar um morto? E o que dizer, igualmente, quando os primeiros buscam os santos? Advém daí, desta estranheza, a pergunta: “mas que objeção é esta?”.
Tais igrejas, é verdade, revivem insistentemente aqueles artigos, mas “por que”, pergunto, ao mesmo tempo silencia quanto ao início do capítulo (Dt 18:1-2) que “proíbe aos sacerdotes a posse de bens terrenos e a partilha de qualquer herança porque o Senhor é a sua própria herança”?
Liberte-se do comodismo intelectual-religioso, leia as obras de ALLAN KARDEC.
NOTAS DO SITE
(1) Novo Testamento: Denominação dada aos Evangelhos, se opondo ao Antigo Testamento, cujos registros são anteriores à vinda do Cristo.
(2) Velho Testamento: Conhecido também como Antigo Testamento, Livro da Lei, Livro Sagrado ou Bíblia Hebraica. É a denominação dada aos Livros que antecedem os Evangelhos de Mateus, Lucas, Marcos e João, que marcam a presença de Jesus na Terra.
(3) Torá: Ou Torah, também conhecida como a Bíblia Hebraica, sendo considerada o Livro da Lei dos judeus. É composto dos cinco primeiros Livros do Antigo Testamento (Pentateuco), atribuídos a Moisés. São eles: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.