Os sonhos são sonhos e a realidade é a realidade; os sonhos são produtos da imaginação e a realidade é um produto concreto; os sonhos são obscuros e a realidade é clara; os sonhos não são críveis e a realidade é positiva; os sonhos são involuntários e a realidade é voluntária...
Dessas comparações contraditórias decorre o seguinte: que de tudo na vida só devemos crer com certeza no que sabemos com clareza e distinção, contudo os sonhos não correspondem àqueles dois critérios do entendimento – conforme nos lecionou o “Pai da Filosofia Moderna”, RENE DESCARTES (1496/1650) – pois, se sonhamos em termos ido à Lua, na verdade sequer saímos da cama! Daí que “viver de sonhos”, ou “acreditar em sonhos”, é o mesmo que não ter os pés bem assentados no mundo real. Trata-se duma temeridade.
As ciências abominam os sonhos por estes não terem correspondência com a realidade, logo, não são lógicos, não obstante não podermos sonhar senão com figuras reais, concretas, por nós conhecidas.
Por exemplo: sonha-se com um centauro – grifo mitológico composto por um tronco humano na metade anterior e por um corpo de cavalo na metade posterior, portanto, algo que não existe na realidade e, assim sendo, inconcebível pela razão –, todavia, o sonhador junta aquelas duas metades de coisas reais e com elas compõe uma figura absurda. Isto implica em não dar, realmente, para “viver de sonhos” nem afirmar serem eles verídicos, isso equivaleria a passar um atestado de esquizofrenia.
A Filosofia, como a Ciência, também entende que o homem, quando sonha, não tem o mesmo grau de consciência que teria se estivesse desperto, porquanto o sonhador se encontra com os seus sentidos em suspensão. E quanto as religiões? Nelas, paradoxalmente, afirmam-se coisas e mais coisas tão inverossímeis quanto os sonhos, como, por exemplo, as existências dos Anjos; e mais, pasme, ainda os afirmam em 9 categorias!
A partir disto e não sem justa razão, surge uma pergunta irreverente em seu deslizamento: você, que desfruta de um juízo saudável, acredita mesmo nessa falácia? Se respondeu “sim”, então você também acredita em Papai Noel, Branca de Neve, e por aí vai, porque acreditar nos Anjos é o mesmo que acreditar nos sonhos e, destes, como daqueles, não temos a mínima comprovação sensível, lógica, racional, em suma: científica. Mas elas continuam a pregar para as multidões e a escrever sobre eles como se eles, os Anjos, existissem! Não é sem justo motivo que o ceticismo ganha corpo e a incredulidade esvazia os salões dos templos, igrejas, sinagogas, e mesquitas. Quanto atraso intelectual, quanto tempo perdido, quanta miséria religiosa!...
De que adiantou à Humanidade o dogmático IV Concílio Ecumênico de Latrão (1215) ao nos reafirmar a existência dos Anjos – “seres perfeitos criados por DEUS” – se eles nunca tiveram suas existências comprovadas, permanecendo as suas existências apenas nas linhas dos Antigo e Novo Testamento? Ora, os tempos presentes são outros, são os tempos das mentes científicas, das mentes que exigem as existências daquilo que se pensa e que se fala!
Segundo aquele concílio eles foram criados por DEUS a partir do “nada”, como se o nada existisse! Se você crê no “nada”, então tente pensá-lo! Conseguiu? Não, é óbvio, porquanto o “nada” é impensável, logo, não existe. Portanto, se “o nada não existe”, então como DEUS conseguiu criar os Anjos a partir do “nada”? Acredite quem quiser, porquanto essa história vai se empalidecendo cada vez mais. Religiões assim claudicam em suas bases, iludem as massas, e engrossam as já não pequenas fileiras dos ignorantes da verdade.
Surge daqui, aliás, outra pergunta que deveria interessar aos fiéis: se “os Anjos são seres perfeitos criados por DEUS”, então como puderam pecar? A perfeição absoluta não implica na inexistência de qualquer imperfeição? Por consequência, da aceitação desse dogma demanda ter fé mas ser cego para o raciocínio, isto é, admitir que a fé nada tem a ver com o pensamento metodológico. Trata-se da “fé cega” e este é mais um absurdo aceito, infelizmente, pela maioria dos religiosos tradicionais que se tornam, assim, “cegos guiando cegos”, senão vejamos: sendo os Anjos seres sobrenaturais, visto jamais haverem sido humanos, então como a razão humana pode pensá-los se o pensamento apenas pode pensar o que existe, qual seja, o que é natural? E, para piorar as coisas, a teologia católica criou a idéia deles serem homens alados, conforme a Arte os exibe!
Eis porque os espíritas não podem crer nisso, haja vista ser o Espiritismo a única religião do mundo na qual a fé caminha de braços dados com a ciência, lado a lado. Se os seus ensinos não forem, todos, eminentemente racionais, então não serão ensinos espíritas mas sim outras coisas que não sabemos o que sejam. O espírita é alguém que raciocina porque trabalha com a mente lógica, o que significa, com a realidade, e não com a mente imaginativa, quero dizer, com os sonhos, pois a imaginação humana é muito fértil. A imaginação é tão fértil ao ponto de poder imaginar um quiliágono – um círculo com 1.000 raios – mas não conseguir diferenciá-lo de outro círculo com 1.001 raios! O entendimento entende do que estou falando, mas a imaginação – que é capacidade psíquica que a mente humana tem de formar imagens como nos sonhos – não consegue imaginar, ver a diferença.
O que isso nos demonstra? Que a imaginação provocada pela atividade onírica nada têm a ver com a realidade. Daí retorna aquela “uma pergunta irreverente”: você ainda continua a crer nos Anjos e, ao mesmo tempo, crer nas infinitas-perfeitas bondade e justiça de DEUS? Então nós, os espíritas, somos levados a lhe informar, conforme as deduções filosóficas extraídas da do augusto BARUCH DE SPINOZA (1632-1677): “que acreditamos no mesmo DEUS, porém por motivos diferentes”.
Saiba mais lendo o “O Livro dos Espíritos”, de ALLAN KARDEC.