Em o seu célebre livro “O CÉU E O INFERNO”, datado de 1865, ALLAN KARDEC inicia-o afirmando: “Vivemos, pensamos, e operamos – eis o que é positivo –. E que morremos, não é menos certo. Mas, deixando a Terra, para onde iremos? Que seremos após a morte? Estaremos melhor ou pior? Existiremos ou não? Ser ou não ser, tal a alternativa; o tudo ou o nada?”. Eis o que todo e qualquer homem gostaria de saber com uma certeza tão evidente quanto esta página que você está lendo. Daí a sua pergunta ainda sem resposta pelas religiões tradicionais: quais são as nossas garantias nesse conhecimento? Temos pelo menos uma? Pois as religiões não tratam exatamente disso? Eis sobre o que discorreremos, as nossas alternativas futuras. E por que isso? Porque são chegados os tempos das vendas serem retirados dos nossos olhos.
É certa, não duvidamos disso, a consciência do nosso existir, mas o mesmo já não podemos afirmar com relação ao porvir da nossa alma, e nada mais desesperador do que pensar em nosso desaparecimento absoluto, pois o homem deseja e intui a sobrevivência da sua personalidade, da sua identidade, do seu “Eu”, enfim; todavia, ainda até agora se encontra desprovido dos respectivos instrumentos comprobatórios daquela máxima dúvida. Muito pelo contrário, quais lhe são as alternativas oferecidas pelas religiões tradicionais? Duas, e ambas ameaçadoras, as das estações finais do Céu e do Inferno! Contudo, mesmo sendo terríveis essas duas opções, como acreditar nelas se ninguém ainda retornou de lá? E, além disso, caso tivesse ido, aquelas saídas estar-lhe-iam interditadas!
A propósito, discorramos sobre as nossas possibilidades porvindouras:
O “nada”. Admitamos seja o “nada” o futuro da alma; então, se realmente for, como deveremos viver neste nosso presente? Não há alternativa, visto somente haver uma opção-solução, a de tirarmos dele as maiores vantagens materiais porque, se ela desaparecer no “nada”, então jamais poder-lhe-á ser pedidas contas morais. Nessa circunstância imperará o materialismo associado à anomia(1), pois a Lei só poderá ser a do “salve-se quem puder”, derivada do princípio “vença o mais forte”. E do mesmo modo como não existe efeito sem causa nem causa sem efeito, então a sociedade tornar-se-á anti-social por estarem quebrados os laços de solidariedade e fraternidade nos quais se fundavam as suas relações e, diante dessa perspectiva, o mais singelo ato de sobreviver tornar-se-á uma atividade extremamente perigosa na medida em que será impossível impor qualquer dever a quem crê no “nada” após a morte. Estará implantado o niilismo-materialista-existencialista(2), uma filosofia de efeitos pessimistas porque, ao final, todos desapareceremos. Tal aceitação, levada ao extremo internacional, instalará o caos mundial.
O “tudo/todo” é o seu lado sistêmico inverso, e a sua natureza é panteísta, qual seja, “DEUS em tudo; todas as coisas são DEUS”.
Para quem nele crê, podemos aguardar o mesmo efeito encontrado quando da nossa admissão ao “nada”, pois para quem crê ser a sua alma um fragmento despregado do Todo Universal Inteligente (TUI), a este forçosamente retornará para ser absorvido uma vez completada a fatídica viagem final. Mas tal estranho pensamento se torna logicamente impossível; justifiquemos isso, porque:
1) Aquele TUI, anteriormente homogêneo, modificar-se-á, deixando de ser o que era, pois a partícula, retornada, não será mais igual quando do momento da sua saída; encarnando terá aprendido algo novo e, em sendo assim, terá mudado e, consequentemente, aquele TUI não poderá ser mais dito “espiritual”, terá que ser dito “material”, posto que só o que é composto por matéria poder mudar, deixando de ser o que é; e mais:
2) A partícula-alma, ou a alma-partícula, ao mergulhar para ser absorvida, perderá a sua individualidade, tal como a perde uma gota de chuva absorvida pelo oceano donde saíra; consequentemente, devido ao seu desaparecimento, também não poder-lhe-á ser pedidas contas das suas responsabilidades morais. Trata-se também duma teoria pessimista.
Ainda na linha do panteísmo, existe ainda outro tipo, inverso do sistema acima, porque, deste, parte alguma se desprende: estamos tratando do panteísmo do tipo “spinozista”(3), no qual o Todo Universal (TU) é DEUS por ser ele a soma de tudo o que existe: vida, morte, consciência, matéria, instinto, homens, animais, vegetais, minerais, etc. Neste modelo não há nada solto, nada foi desprendido para encarnar, conquanto nele tudo se encontra permanentemente interligado numa rede de proporções universais.
Onde se encontram os erros desse sistema? Aqui:
1) DEUS será, concomitantemente, espírito e matéria, logo, será um ser humano como todos nós, de nós não se diferenciando, logo, sofrendo todas as nossas dificuldades e, por fim, vindo a morrer;
2) Sendo cada ser uma parte do TU, então as infinitas partes constantes dele também serão DEUS, tornando desse modo a Criação uma república sem chefe ou, antes, cada parte será um chefe com poder absoluto;
3) Como pode esse TU ser perfeito se for formado por partes tão divergentes e imperfeitas em suas ideias, mormente as contraditórias?;
4) Se as leis universais são harmônicas, imutáveis, previdentes, e providentes, então como as infinitas partes murmuram contra elas, se foram feitas por todas? E, finalmente
5) DEUS acabaria por se tornar uma miríade de vontades divergentes.
Moralmente falando, temos ainda aqui a perda da personalidade anímica por não existir nenhuma individualidade anterior, posto tudo ser permanentemente atual, impedindo assim qualquer individualidade posterior. Trata-se, portanto, dum sistema já nascido fracassado por impedir a existência da alma individual e, concomitantemente, a imputação da responsabilidade dos seus atos.
Conclusão: as duas espécies de panteísmo são pessimistas porque o ser pensante e livremente voluntarioso confunde-se com o Todo e perde assim a sua essência.
Homens! Acordemos! Se no passado tais lendas apenas intimidavam os nenéns, hoje não podem mais nos engambelar, pois tornamo-nos espíritos adultos, seres pensantes-racionais, e nossa razão exige provas lógicas e epistêmicas(4) daqueles “lugares” bem como daqueles sistemas.
Por isso o homem contemporâneo, o homem exigente das demonstrações, vê-se abatido em sua inteligência e, inconformado com tais possibilidades, reflete e torna a se perguntar: “como preencherei esse vácuo intelectual?”. Restou-lhe, é verdade, apenas a hipótese da individualidade da alma, mas, nesse caso, o seu porvir ou será o Céu ou o Inferno, ambos ilógicos, como vimos, por não sabermos do que estamos falando quando os enunciamos. Logo: como escapar de todos os sistemas acima e, ao mesmo tempo, manter a sua identidade, aquilo em que a sua existência consiste? Só com a Religião Espírita, a única religião terrena onde as almas retornam através da fenomenologia da mediunidade e garantem assim a estabilidade do nosso porvir. Em outras palavras: com o Espiritismodesaparecem os famigerados “Tudo”, “Nada”, “Céu”, e “Inferno”, permanecendo tão-somente a realidade espiritual instintiva.
E donde lhe vem tal força moral, tamanha autoridade? Ora, porque não se trata, o Espiritismo, duma obra de imaginação arquitetada engenhosamente, mas sim parte da observação e experimentação dos fatos que, como sabemos, não podem deixar de ser o que são, independente das muitas diversas teorias aventadas para lhes justificar. Nele e apenas nele desaparecem aquelas quatro opiniões divergentes, pessimistas, e infrutíferas. Demonstrando-nos o porvir, torna-se a
Quer saber mais? Então leia o “O CÉU E O INFERNO”, de ALLAN KARDEC.
Nota do Site:
(1) anomia: ausência de leis, de regras ou de normas de organização.
(2) niilismo-materialista-existencialista: redução a nada, aniquilamento; descrença absoluta; a morte e o fim.
(3) spinozista ou espinosista: pertencente ou relativo ou partidário a Baruch de Espinosa, filósofo holandês (1632-1677).
(4) epistêmico: conhecimento ou saber pessoal; subjetivo.