Por crerem que temos um espírito sobrevivente à morte, todas as religiões são espiritualistas e possuem filosofias que as sustentam, o mesmo ocorrendo com a religião espírita. Todavia este Moderno Espiritualismo delas se afasta porque, enquanto todas se iniciam em DEUS para a partir d’“Ele” provar dedutivamente a existência do mundo e da alma, por outro lado o Espiritismo emana do ser pensante da natureza, o Espírito, para provar a existência daquela Causa Primeira de tudo o que existe absolutamente. Assim sendo poderíamos dizer, conforme o filósofo SPINOZA, que “acreditamos nas mesmas coisas, porém por princípios/motivos diferentes”. Daí a dialética espírita se torna um discurso ascendente mediante conceitos naturais, porquanto o Espírito é um ser natural na medida em que, como tudo que é natural, também foi criado por DEUS. Isso faz com que o Espiritismo se fundamente na experiência/empírica, tornando-se assim uma ciência – um conhecimento bem fundado – por pelo menos cinco motivos:
1º) Por não se sustentar no fideísmo, seja dito, na impotência da razão em poder alcançar as verdades da fé, a Doutrina Espírita é uma religião racionalista, logo, cientificamente comprovável, por se firmar nas experiências observacionais e controláveis – controláveis sim, mas até certo ponto porque os fenômenos espirituais dependem do assentimento da vontade dos Espíritos, seu centro de irradiação –;
2º) Por verificar a impossibilidade de poder criar a si mesmo o Espírito avança no conhecimento e exige a emergência lógica da existência do DEUS-Criador do real-material visível e invisível, regido pelas leis físico-mecânicas, biológicas, lógicas, e morais – estas as que tratam da vontade livre –. E a todas o Espírito se encontra inapelavelmente submetido;
3º) Por DEUS se revelar aos homens nas religiões espiritualistas tradicionais, sendo assim um ato de “crença cega” para os que não O viram, o que implica num ato de puro dogmatismo e ausência de universalidade, no Espiritismo DEUS é um ato racional do pensamento especulativo-investigativo que parte dos fatos comprobatórios da existência do universo para somente a partir daí demonstrar a Sua existência por necessidade de uma instância lógica-ontológica-epistemológica;
4º) Por agir dogmaticamente a partir daquela singela “revelação mosaica”, não podemos ter sequer uma singela comprovação racional-científica da Sua existência, enquanto na Terceira Revelação todas as comprovações partem do espírito-criatura para o Criador, invertendo assim o processo gnosiológico sobre a existência de DEUS; e
5º) Por ser ALLAN KARDEC um excelente pedagogo, então imediatamente no primeiro capítulo da Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita procurou definir o seu objeto de estudo – o Espiritismo – a fim de que todos pudessem pensá-lo conceitualmente de um mesmo modo, isto é, sem distorções. Ei-la: “É a doutrina que tem por princípio as relações do mundo material com os espíritos ou seres do mundo invisível” – por princípio, portanto, não há Espiritismo sem as relações dos Espíritos com os homens, nesta ordem –. Mas estas inter-relações são peremptoriamente negadas por aqueloutras religiões dominantes, ditas “espiritualistas”, por julgar que os autores do Espiritismo são seres diabólicos pois os espíritos dos homens-defuntos jamais poderiam vir do local onde se encontram para se comunicar com os que aqui ficaram porquanto permanecerão dormindo até o “Dia do Juízo Final”, determinados como estão a partir das suas mortes, conforme a Bíblia. Todavia, mesmo a Bíblia se torna incapaz diante dos fatos.
Mas se é exatamente a comunicação dos espíritos dos homens-defuntos com os espíritos dos homens-vivos o que caracteriza e diferencia a o Espiritismo das demais religiões tradicionais! Mas se é isso mesmo o que ele, o “Consolador Prometido”, traz como novidade ao mundo! Na medida em que sistematizou e explicou tais fenômenos sempre presentes na história da Humanidade, porém desconsiderados que foram pelos sábios e pensadores da época, deu-lhes uma base racional teórica, filosófica, científica, religiosa, e prática-experimental, principalmente quando consideramos o emprego da sua moral-cristã bem como os seus correspondentes desdobramentos nos continuadores de ALLAN KARDEC: LEON DENIS, GABRIEL DELANNE, FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER, etc.
Destarte, como obra filosófica que é, o “O Livro dos Espíritos” tem sua crença fundamentada na razão universal como instrumento do seu método veritativo, qual seja, a razão como o mais alto tribunal do entendimento, uma vez que é a razão que afirma ou nega, pela emissão do juízo, a realidade espiritual das comunicações daqueles conosco. A razão se posta diante da fenomenologia mediúnica e repete-lhe as perguntas filosóficas clássicas por excelência: “O que é isto? Por que isto”. Segue-se daí, ao estilo filosófico, que “O Livro dos Espíritos” é um livro escrito sob o modelo interrogativo e, a partir disso, dialógico, o que o torna de leitura fácil, prática, direta, e simples, posto que o modo interrogativo ainda é o melhor meio para se fazer avançar o diálogo pela incitação à resposta que, por sua vez, se constitui numa futura nova interrogação e, assim, se construindo o discurso.
Esse modelo literário criado pelo filósofo PLATÃO de Atenas faz com que “O Livro dos Espíritos” seja um livro democrático desde a sua origem, tal qual a Filosofia, ou seja, perfeitamente concordante com a característica do pensamento: ser livre. Torna-se então o Espiritismo a única doutrina-religiosa democrática ao abrir um espaço lógico para o homem poder se expressar e ser ouvido, colocar os seus pensamentos como ser pensante que é, e não apenas se portar como um ouvinte crente-cego, desprovido de idéias próprias, tal qual ocorre nas demais teologias espiritualistas monologais-individuais, posto que nelas não é dado ao homem possuir voz, exceto para dizer “sim” ao Livro.
A Dialética, criada pelo filósofo grego ZENÃO de Eléia, foi concebida “... como uma confutação metódica das teses do adversário por meio da demonstração da contraditoriedade da tese oposta”, ou seja, é uma forma de demonstração pelo absurdo, que é o contraditório.
Além do mais, como a Doutrina Espírita é uma filosofia, então a dialética é a sua mais alta forma de filosofar, pois é pela discussão que os interlocutores purificam o conceito a fim de chegar à definição da coisa/de qualquer coisa. E ainda: o diálogo evita o dogma que sempre advém do monólogo ou do modo absolutismo-imperativo porquanto ambos não permitem replicações.
Pois bem, ALLAN KARDEC acreditou no método dialético e o aplicou ao sistema espírita, pois ele não perguntou 1.019 vezes aos Espíritos “O que é isto?” e “Qual é a causa disto?”? Não depurou os novéis conceitos lançados pelos Espíritos superiores e os estudou até chegar à definição do que seja a coisa perguntada? Portanto KARDEC considera que o método de se perguntar democraticamente para forçar o interlocutor a responder, e vice-versa, é o melhor para a compreensão da Doutrina Espírita e, por isso, o elegeu. “O Livro dos Espíritos”, portanto, será – porque o é – dialético, pois mantém viva a narração do diálogo travado entre KARDEC e os Espíritos na busca de encontrar as causas dos fatos espirituais surgidos no mundo, a partir de 1.848, no condado de HYDESVILLE/NOVA YORK, EUA.
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