É dito, historicamente, que “a Filosofia é uma disciplina irreverente”. E é mesmo, concordamos, por fazer suas perguntas audaciosas-corajosas de sempre, as quais trazem em seu bojo o curioso poder de testar a aparente solidez-estabilidade dos conceitos vigentes nos demais ramos do conhecimento humano, quais sejam, os científico e religioso. Aliás essa é a sua característica fundamental, a de não tecer reverências a quaisquer sistemas considerados como sendo a “palavra final sobre o assunto”, porquanto, ao revés, questiona-os exaustivamente, testando-os de forma implacável, ao mesmo tempo em que lhes concede a oportunidade de lograrem passar por seu crivo.
A Filosofia a tudo investiga, agindo como o alto forno na produção da liga ferro-carbono que, exposta às elevadas temperaturas daquele, origina o aço cuja característica de dureza ou ductilidade são-lhe dados pela têmpera.
Jamais sendo mal-educada, porém sendo considerada “inconveniente” pelos que consideram ameaçados seus pedestais de supostos conhecimentos, a Filosofia bem sabe de sua missão: a de buscar, racional e cientificamente – nunca dogmaticamente –, a verdade última das coisas, qual seja, a Verdade primeira pela quais todas as verdades segundas são verdadeiras.
A Filosofia surgiu no mundo quando o homem prático, simples, e ingênuo, deparou-se com algo desconhecido postado diante de si e se fez duas perguntas que complexificaram o mundo e o complexificaram:
1º) “O que é isto?”; e
2º) “Qual é a razão/causa disto?”.
Sua patética ignorância causou-lhe espanto e admiração e, ao sair em busca do preenchimento daquele vazio intelectual, começou a pensar teoricamente na lei natural pela qual aquele algo – e por extensão o mundo – existia.
A Filosofia ultrapassou os milênios, encontra-se entre nós, e permanecerá com o homem cuja essência é a de pensar inteligivelmente segundo as regras da razão, hauridas a partir das natureza.
A pergunta “inconveniente” pelo “por que” criou e ainda continua a criar crises que ocasionaram críticas nas Física, Epistemologia, Lógica, e Ética, sendo que nesta última incluem-se as religiões. Ora, por serem todas elas dogmáticas, preconceituosas, e de má-fé para com a racionalidade por seguirem as muito malvistas e malquistas “Tradições” judaica, islâmica, católica, e protestante, isso implica em que estas rejeitem tudo quanto seja novo, moderno, e progressista: seus sistemas de “verdades” sentem-se ameaçados e, então, temem-na. Daí que, desarmadas de argumentos à altura, agridem-na, porquanto a Filosofia, em sua faina, investiga as validades argumentativas de suas ideias sobre seus objetos de culto – a alma e DEUS –, seus valores morais – a Ética –, bem como suas finalidades – a Escatologia –, etc.
Temos tanta certeza das religiões quanto temos desta mesa? Não, não temos. E por que “não temos”? Pois não são elas tão diferentes entre si em seus fundamentos e teorias últimas sobre o homem, a alma, e o universo? Logo, com qual delas estará a verdade?
Filosofar é simples assim.
Ridicularizada, desprezada mesmo, pelas religiões dominantes, desde a derrota de PAULO de Tarso, “O Apóstolo dos Gentios”, frente aos filósofos estoicos e epicureus (At, 17:16-18), este desancou-a em suas cartas e, por isso, a Filosofia ainda não pôde se tornar cristã por causa dos apelos religiosos ao sobrenatural, ao que é, no limite, antinatural e, portanto, inaceitável pela razão por se constituir num absurdo! E a razão, ápice do homem, foi banida das religiões! Senão, qual é hoje o espaço da ciência filosófica no âmbito religioso? Nenhum, exceto no da Doutrina Espírita, única religião “capaz de enfrentar a razão face a face em todas as épocas da Humanidade” por ser “a filosofia da ciência, a ciência da religião, e a religião da filosofia”. Toda fé espíritase assenta sobre a razão, ou seja, sobre o bom-senso, patrimônio humano-universal. Só. Nenhuma outra religião, exceto esta, ensinou-nos a amar racionalmente a DEUS e, com base no empirismo mediúnico, deu-nos conta tanto do mundo material quanto do espiritual.
Com a Religião dos Espíritos nasceu a Filosofia Espírita que veio corrigir, mediante as questões apresentadas por
A Terceira Revelação, ou “O Consolador Prometido” (Jô, 14:16 e 26; 16:7), demonstrou-nos que a alma é anterior ao corpo, pois já existia antes, e volverá ao proscênio terrestre quando tornar a reencarnar. Onde aquelas religiões estacionaram – diante do túmulo – o Espiritismo prosseguiu em frente, fazendo a Religião progredir por constatar a Lei do Progresso no mundo.
O homem contemporâneo exigiu provas materiais, morais, substanciais, sobre a existência da alma, em vez daqueles discursos vazios de significados. “Mehr licht” – “mais luz”, pediu GOETHE (1749-1832), o grande escritor alemão, antes de morrer, mas infelizmente as religiões nunca lha deram.
Graças à luz portada pelo Espiritismo a Filosofia conseguiu se transcender, ultrapassar seus limites, e desaguar na Filosofia Espírita, seu oceano.