Joel F. de Souza



De quê ou de quem é a culpa?

06-01-2012

Caros leitores, convido-os a um pequeno esforço mental, o de recuarmos aos idos do século 18, na EUROPA, a fim de encontrarmos um médico bastante famoso àquela época e ainda em nosso tempo: CHRISTIAN FRIEDRICH SAMUEL HAHNEMANN (1775/1843), cognominado “O Pai da Homeopatia” – modelo terapêutico que consiste em tratar os aspectos mórbidos com pequeníssimas doses de substâncias causadoras dos mesmos aspectos –. Bastante estranho, não? Pois foi com essas ideias notavelmente avançadas para os seus dias que revolucionou a Medicina ao inverter o processo terapêutico em vigor, a alopatia – modelo terapêutico que consiste em tratar os doentes com medicamentos que produzem sintomas contrários –, pois estava cada vez mais convencido da inutilidade dos tratamentos por meio desta. Então, obsedado pela intuição de que existia um método de cura simples e desconhecido, em 1790 começou por experimentar em si mesmo a ação da quinquina(1) e, em 1796, deu nascimento à Homeopatia.

Guardemos o nome deste valoroso homem pela sua contribuição à arte de curar e passemos à análise da questão de nosso interesse, o: “de quê ou de quem é a culpa?”, porquanto busco saber se os desequilíbrios hormonais são os responsáveis pelos desequilíbrios das atitudes das nossas personalidades ou são estas as causas dos desequilíbrios daqueles? Coloco o problema assim porque, para cada caso de alteração de humor, como no caso da cólera, por exemplo, correspondem alterações nas taxas hormonais circulantes no sangue, logo, a quê ou a quem atribuir a culpa nesse caso?

Curiosamente as pessoas com propensão à violência quase sempre atribuem-na ao seu temperamento, quer dizer, ao fato de serem assim por terem nascido assim e, assim sendo, é-lhes impossível quaisquer modificações. Num entristecedor fatalismo genético. Porém, suspeitando exatamente deste “biologismo”, cumpre-nos perguntar: é o corpo que dá raiva e melancolia – estados extremos –, aos que não as têm? Se admitirmos a verdade disso, então teremos que inocentar todos os ladrões, corruptos, assassinos, adúlteros, etc., e a Justiça teria fechada a sua porta na medida exata de que todos seriam inocentes, simples marionetes nas mãos do genoma. Mas, ao invés, se não for o corpo o responsável pelas nossas atitudes morais, quero dizer, pelos nossos vícios e virtudes que são, respectivamente, qualidades positivas e negativas, condizentes e concernentes ao espírito, então, a quê ou a quem devemos atribuir a culpa pelos nossos destemperos? Ao corpo ou ao espírito?

Se os nossos excessos derivassem do modo corporal, então teríamos que indagar de DEUS porque nos dotou de uma das propriedades do espírito, a vontade soberana, já que de nada nos adianta possuí-la? Ora essa! Supor que o Criador nos dotou de algo inútil seria supô-lo um ignorante, o que não é, basta-nos contemplar Sua obra, a Criação.

A questão do título é muito mais antiga e remonta ao grego HIPÓCRATES de Cós (460/377 a.C.), considerado o maior médico da Antiguidade e para quem a vida, ou a saúde, seria mantida pelo equilíbrio entre os quatro humores: o sangue, a fleugma, a bílis amarela, e a bílis negra, procedentes respectivamente do coração, dos pulmões, do fígado, e do baço, dispondo cada um de qualidades diferentes por causa dos alimentos que, ingeridos, deram-lhes as respectivas origens. E conforme o predomínio ou excesso de um deles sobre os demais nas constituições dos indivíduos, teríamos quatro diferentes tipos básicos de doenças fisiológicas comportamentais:

1º) O sanguíneo, que seria corajoso, feroz, e cruel;

2º) O fleugmático, que seria racional, calmo, e frio de ânimo;

3º) O bilioso-amarelo, que seria irritadiço, colérico, e agressivo; e

4º) O melancólico, que seria desanimado, acamado, e triste.

A sofrida sangria teve aqui a sua origem, pois supunha-se que ela ajudaria a expulsar o humor excessivo ou a contrariar suas qualidades. Mas, desde o 19, a Psicologia Moderna – ciência das doenças comportamentais – já nos informou sobre o poder da vontade quando queremos, firmemente, modificarmo-nos para melhor, isto é, positivamente, qual seja, a favor da vida e não da sua destruição, gradual ou não.

Transcorridos vinte anos da desencarnação do sábio HAHNEMANN, eis que, em 1863, seu Espírito retornou pela exuberância da mediunidade e trouxe-nos a seguinte comunicação espiritual contida no Capítulo XIX, 10, d’“O Evangelho Segundo o Espiritismo”: “compenetremo-nos, pois, de que o homem não se conserva vicioso senão porque quer permanecer vicioso; de que aquele que queira corrigir-se sempre o pode. De outro modo não existiria para o homem a Lei do Progresso”.

E, defendendo o insigne esculápio, a Psicologia tem nos demonstrado o poder da vontade quando se deseja, com vontade firme, a cura dos comportamentos padronizados que nos fazem mal e nos conduzem, rápida ou lentamente, à desencarnação. Basta que tenhamos consciência do que nos faz mal e de que passemos a amar a nós mesmos em vez das coisas exteriores que não nos amam porque nos escravizam, quais sejam, os vícios, ou venenos.


(1) Quinquina: Forma sincopada de quinaquina, árvore nativa da Venezuela, de cuja casca se extrai o quinino, usado contra a malária.


Joel F. de Souza
bigjoel@terra.com.br

Voltar para a página anterior / Voltar para a página principal