Se o homem é um ser complexo, formado por corpo e alma, e se realmente existe uma e somente uma salvação, então esta terá que ser a da alma, sua parte imortal, considerando o fenômeno natural da extinção do corpo físico. Foi certamente pensando nesse problema futuro que o padre latino e mártir do Cristianismo, Cipriano (200-210/258), Bispo de Cartago/África, de 249 a 258, emitiu a máxima “Fora da Igreja não há salvação”, ou seja, quem não está na igreja não é cristão, ou seja ainda, ai da alma não-cristã. Esse modo duro de pensar, não obstante, fez seus prosélitos, porquanto Donato adotou-o como brasão. Ex-bispo da Numídia, posteriormente, em 311, foi escolhido para ser o bispo de Cartago em substituição ao bispo eleito, Majorinus, falecido antes de assumir.
A genética dessa questão se resume toda no seguinte: no auge da última perseguição aos cristãos, movida pelo Imperador Diocleciano, em 303 e 305, os bispos africanos receberam a imposição de entregar os livros sagrados ao governo, todavia nem todos entenderam isso do mesmo modo, dividindo-se em:
(strong>1º) Os que não obedeceram. Estes foram presos e considerados “mártires; puros”, e,
(strong>2º) Os que obedeceram. Estes foram considerados , eram os “lapsi” – do substantivo latino “lapsus, -a, -um”, que significa “escorregadela; queda; lapso; erro; engano; falta” –, os que cometeram uma falta, os heréticos, os que entregaram. Mas, passado aquele momento, decidiram retornar à igreja que os aceitou, readmitindo-os.
Instalou-se então o cisma: de um lado a igreja dos “puros”, dos que não perdoavam e não admitiam os pecadores “lapsi”, afrontando a igreja e, do lado oposto, uma outra igreja, a dos “impuros”, impedidos de administrar os sacramentos. Porém, desta, destacou-se Ceciliano, um “traidor”, portanto, contudo eleito bispo de Cartago em 311; e foi para lhe opor que os “puros” elegeram Donato, surgindo daí o nome histórico dessa questão cismática que durou 150 anos(1) “donatismo”. Seu lema? O mesmo daquele histórico bispo Cipriano, “Fora da igreja não há salvação”, não aceitando assim a reintegração dos apóstatas ao seio da igreja mesmo quando, em 313, uma comissão nomeada pelo Papa Melquíades os condenou; mas os donatistas consideravam-se os únicos representantes da “igreja verdadeira”.
No meio de todo esse jogo de forças políticas-religiosas, perguntamos: e os bilhões de almas dos que nasceram, viveram, e morreram, antes do advento do Cristianismo e antes de Cipriano lançar essa regra de conduta, válida até hoje? E os outros contingentes de bilhões de pessoas nascidas depois do Cristo e que jamais souberam da sua existência, como os chineses, por exemplo, existentes desde 5.000 anos antes? E os judeus não-convertidos, contemporâneos de Jesus? E as almas dos índios das Américas Central, Norte, e Sul! Todas arderão no fogo infernal? E quanto a todos nós outros, não-católicos, para onde iremos se não estamos “salvos” por não pertencermos à igreja dominante? Apenas por isso a nossa alma não estará salva? Ora, tal pensamento-tético não pode mais caber na mente de homem algum e seria bastante surpreendente que coubesse!
Consequentemente então, por manter os absurdos da sua Tradição, a igreja acabou por fomentar o contrário do desejado: o antagonismo às suas idéias, a descrença, e o aumento do exército dos agnósticos, dos ateus, e dos materialistas, pois, ao se apossar de DEUS e ao torná-lO exclusividade sua, passou a legislar em Seu nome através dos Concílios e dos Sínodos, esquecendo-se do restante da população mundial, como se esta também não tivesse sido criada por DEUS! Aquele mesmo arrogante e orgulhoso exclusivismo judaico havia sido transferido de lado.
Para nós, espíritas, aquele brasão de Cipriano carece de sentido, porquanto já não estamos todos salvos por sermos “filhos de DEUS”(2)? Logo, trata-se duma afirmação incoerente. Certamente Cipriano, para enunciá-la, baseou-se no Novo Testamento, no entendimento do Cristo ser o nosso “salvador”, conforme alguns textos dos quais selecionamos estes: “Tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor, preparando-lhe os caminhos, para dar ao seu povo conhecimento da salvação, no redimi-lo dos seus pecados” (Lc 76-78); “... é que hoje vos nasceu na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor” (Lc 2:11); “E diziam à mulher: já agora não é pelo que disseste que nós cremos, mas porque nós mesmos temos ouvidos e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo”(Jo 4:42), etc. Mas Jesus salvou alguém? Seu sangue lavou-nos, redimiu-nos dos nossos pecados, conforme Mt 26:28? Que se olhe para o mundo depois da sua vinda e ida: lutas fratricidas; dominações militares, políticas, e religiosas; “guerras santas”, como as seis Cruzadas – como se fosse possível admitir o conceito de “guerra santa” e, ainda mais, pela cruz! –; a desnaturada campanha contra os cátaros albigenses, todos mortos por ordem papal, num episódio que deflagrou a Santa Inquisição; a Santa Inquisição que encharcou o chão da Europa com os sangues dos não-cristãos e judeus; as guerras religiosas modernas, ...Isto posto, indagamos: de qual “salvação” estamos falando?
Óh, Homens! Acordem e pensem: em verdade, caso Jesus tivesse vindo nos salvar, então como é que, depois dele, aconteceram – e para o nosso lamento, ainda acontecem – todos esses fatos históricos acima apontados? Como admiti-lo como sendo o nosso “Salvador” se os pecados humanos continuaram e até se multiplicaram depois do seu sangue derramado? Jesus, indubitavelmente, teria falhado em sua gloriosa missão! Daí tratar-se dum absurdo pensar daquela forma dogmática e tradicional, até mesmo porque o Mestre jamais pronunciou tal aforismo. Mas por que é “um absurdo” pensar daquele modo tão duro? Porque imposição é uma violência à vontade livre de cada ser humano e, se todos a temos e ela é livre, quer dizer, soberana-universal, então foi-nos dada por DEUS; logo, nem DEUS nem sequer Jesus poderão desconsiderá-la: o primeiro porque, se a retirasse, não mais poderia ser DEUS, já que não saberia em que estava pensando e desejando quando nô-la deu; e o segundo porque estaria afirmando uma mentira por pelo menos dois motivos:
1º) Porque estaria violando uma lei divina ao querer nos escravizar o arbítrio, e,
2º) Porque não conseguiu salvar mundo algum, homem algum, coisa alguma, haja visto tudo haver piorado desde o instante da sua vinda até hoje.
Surgiu disso tudo a nossa estranheza com relação à salvação: de qual “salvação” estamos falando? Existe pelo menos uma? E, se existe uma ou mais do que uma, então em qual “salvação” deveremos crer? Apenas numa, naquela na qual o homem, usando de todas suas faculdades, aperfeiçoadas ao longo de suas numeráveis reencarnações, decidiu por si mesmo aceitar em sua consciência a lei que a si mesmo se dá, a Lei de DEUS, e impor-lhe curso em sua vida, porém isso livremente. Eis porque o lema espírita não é excludente mas sim includente, não é tiranizante mas sim democrático, não é egoísta mas sim universalista e, por tudo isso, verdadeiramente cristão. Ei-lo: “Fora da caridade não há salvação”, porque a caridade é o amor em ação. Agora compreendemos os reais motivos pelos quais os Espíritos superiores deram o título acima. Não basta crer, é imperioso agir e agir cristã e espiriticamente.
A “salvação” espírita não vem do exterior mas do interior de si, até porque por ausência doutra alternativa, conforme já vimos após constatarmos o fracasso do salvacionismo bíblico-cristão, senão, onde aporíamos o mérito moral individual?
Quer saber mais? Então leia “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, compilado por ALLAN KARDEC; nele estão contidas as instruções dos Espíritos superiores.
(1) Iniciou-se no IV e terminou no VI.
(2) Filho bastardo, pois apenas JESUS é o verdadeiro “Filho de DEUS”<;em>; o homem, por sua vez, “foi criado à Sua imagem e semelhança”.