Joel F. de Souza



As ideias inatas e o Espiritismo

06-01-2011

Um dos grandes enigmas clássicos, porque remonta à Antiguidade Clássica, é o das ideias inatas: donde procedem as ideias dum gênio precoce? As respostas da Psiquiatria e da Psicologia apontam para a hereditariedade; todavia, se na família não se tem notícia de nenhum antepassado com tal inteligência ou tantos talentos, então aquela presunção carece de confirmação empírica, porquanto torna evidente que não é o órgão que faz a função. E o oposto também é verdadeiro, pois não poucos filhos de pais notáveis nascem com distúrbios mentais: maníacos, neuróticos, violentos, loucos, etc., e aí a pergunta se inverte: “de onde veio este filho retardado? Até parece não ser da família! Nossos antepassados eram tão cultos!...”. Nesse caso evidencia-se o contrário: não é a função que faz o órgão. Todavia o problema continuou a exigir sua resposta: qual é, verdadeiramente, a origem das ideias inatas? Donde vêm os talentos inatos para a escultura, pintura, música, idiomas, religiosidade, dança, poesia, etc.? Tal questão há de merecer uma resposta científica, isto é, que a Humanidade toda compreenda e aceite.

Vejamos alguns exemplos inesquecíveis: PASCAL, aos 12 anos, sem livros nem mestres, demonstrou até a 32ª proposição de EUCLIDES, publicando um livro no qual avançava além do mestre; MOZART, aos 5 anos, falava Francês, Alemão, Latim, e aos 6 anos compôs sua primeira ópera; MILL, aos 3 anos, aprendeu o alfabeto grego; WREN, aos 4 anos, inventou um instrumento astronômico e o dedicou ao pai, em Latim; BARATIER, aos 4 anos, falava Francês, Latim, Alemão, e os 9 anos adicionou o grego e o hebraico à cultura pessoal; MAYERBEER dava concertos aos 6 anos; LEIBNIZ aprendeu a sós o Latim aos 6 anos; GOETHE, antes dos 12 anos, escrevia em várias línguas; BACON, na mesma idade, já era conhecido pela sua cultura filosófica; e, dentre muitos outros mais, TENNYSON escreveu as 6.000 linhas dum poema épico aos 12 anos. Por outro lado, SÓCRATES era filho dum modesto artista e DEMÓSTENES dum ferrador; o pai de EURÍPEDES era fruteiro e o de VIRGÍLIO um hoteleiro; o pai de MAOMÉ alugava bestas de carga e LUTERO nasceu de um mineiro. E, só para não me estender demasiado, MACHADO DE ASSIS teve uma lavadeira como mãe. E agora? Como resolver o problema pela hereditariedade?

A questão do inatismo alcançou sua resposta no "Menon" (80), de PLATÃO, o qual demonstrou-a pela “teoria da reminiscência” quando um escravo, analfabeto, resolveu grave problema de Geometria, provando que o conhecimento é inato. Na Idade Moderna DESCARTES descobriu que tinha a ideia inata de DEUS dentro de si e a ele seguiram-se inatistas racionalistas como MALEBRANCHE, LEIBNIZ e, se lhes contrapondo, os empiristas LOCKE, BERKELEY, HUME, e KANT, cada qual expondo-a conforme suas teorias.

Mas e as Religiões? Como se posicionaram diante do problema? É DEUS Quem distribui graciosa e aleatoriamente as bênçãos e maldições a todos? A ignorância num e a inteligência noutro? Então, ao invés, por que DEUS não deu inteligência e saúde a mim e ignorância e doença ao vizinho? Sobre esse assunto as Religiões, por completa carência argumentativa, sem sequer saberem por onde poderiam começar, tiveram que se calar, apelando para o Livro: “somos punidos nesta vida com filhos dementes porque nossos pais, avós, ou bisavós, pecaram”, conforme Ex 20:5. Ora, ninguém mais aceita a ideia absurda de que sofreremos porque ADÃO e EVA pecaram! Eles que paguem pelos delitos deles e pronto! Senão teremos que considerar DEUS como sendo o mais injusto dos seres, pois admitir o que consta na Bíblia seria admitir uma contradição: como poderia o Único Ser Perfeitamente Justo ser injusto? Impossível! Como poderiam mais de 20 bilhões de seres – contando as civilizações já desaparecidas e as atuais – pagar por um único erro do, acredite quem quiser, “primeiro casal”?

PLATÃO, seguindo a tradição órfica-pitagórica, fundamentou aquela sua prova pela metempsicose – transmigração da alma através de diferentes corpos, mesmo os não-humanos – a fim de justificar a inteligência inata, todavia sua filosofia metempsicosista incluía que o homem poderia reencarnar em qualquer ser vivo, animal ou vegetal, advindo daí que os melhores homens retornariam como abelhas e, os ótimos, como filósofos, é óbvio. Mas esse foi o seu erro porquanto choca ao espírito humano, por exemplo, a ideia de minha falecida mãe estar agora habitando o corpo do jumento no qual estou montado. Ora, foi justamente porque o corpo dum animal irracional não possui órgãos capazes de exibir a inteligência e racionalidade dum ser humano que a Religião Espírita se posicionou corrigindo e desconsiderando a metempsicose que, a partir de 1.857, com o advento d’“O Livro dos Espíritos”, passou a ser entendida como “reencarnação”, porquanto “o espírito humano não retrograda”, só podendo reencarnar no gênero humano e jamais noutro, na medida em que “os animais não possuem um livre-arbítrio moral, apenas uma e somente uma liberdade adstrita aos atos da vida material”. Que sejam consultadas suas respostas às perguntas 222, 392, 393, 595, 611-613. O espírito não pára, progride sempre, sem cessar. Vivemos ontem, vivemos hoje, viveremos amanhã:

“Nascer, viver, morrer, progredir sempre, tal é a Lei”.


Joel F. de Souza
bigjoel@terra.com.br
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