Joel F. de Souza



A felicidade é possível?

26-07-2011

Os antigos gregos da Idade Clássica denominavam-na como “eudaimonia” que, devidamente aportuguesado, deu “felicidade”, e sua importância fazia-a estar sempre presente nos discursos e nos ágapes filosóficos. Sobre ela já se gastou considerável quantidade de tinta, tempo, e papiro – avô do nosso moderno papel –, e tudo isto foi sendo acrescentado às nossas preocupações por ainda não tê-la, é claro.

A necessidade em ser feliz tem a sua origem a partir de um desconforto psicofísico – explico-me: psíquico com repercussões corporais –, de uma incompreensão em jamais se obter a tão sonhada paz interior, seja dito, o perfeito equilíbrio entre a substância pensante, o espírito, e a substância material, o eu invólucro, corpo, por serem ambos dotados tanto de aptidões quanto de necessidades tão diferentes, porquanto a nossa natureza é assim mesmo, dual e, aparentemente, sempre em oposição. E como não podemos mudar esses construtos, então só nos resta despedir da tão desejada felicidade – e dizemos isso com grande pesar – posto parecer mesmo que cada qual daquelas nossas partes expressa seu próprio antagonismo em relação à outra, e tendo isso, como consequência, conduzir o ser homem ao sofrimento.

“Nem tanto ao mar nem tanto à terra”, acalma-nos o ditado medieval português, porque o ideal de felicidade a ser buscado é o do “perfeito equilíbrio” entre aquelas metades e, admitamos, algo aparentemente difícil porém não impossível, caso contrário hospedaríamos o sofrimento para sempre, estando interditado o nosso sonho teleológico. Mas se nem tanto à alma nem quanto ao corpo, então muito menos a “indiferença” em face do inevitável, conforme lecionaram os filósofos do Estoicismo, Escola surgida na Era Helenística – 323 aC/ morte de ALEXANDRE, “O Grande”, até 146 aC/anexação da península e ilhas gregas por ROMA – mas que durou mais de meio milênio justamente por repensar o homem diante da imensa revolução alexandrina feita nas “polis” gregas e cujos desdobramentos éticos-políticos retiraram daquele protótipo de homem ocidental o “status” de cidadão e fizeram-lhe adotar uma atitude de desinteresse, quando não de aversão, ao Estado. Tendo assim sua realidade histórica destroçada, como continuar a ser feliz?

O Estoicismo foi uma corrente do pensamento humano que reuniu as ideias de dois pensadores antagonistas, PLATÃO e ARISTÓTELES – o primeiro privilegiando o espírito em detrimento do corpo, e o segundo privilegiando o corpo em detrimento da alma –, o qual terminou por concluir que o homem devia bastar a si mesmo, pois, posto não poder pedir apoio e segurança aos outros homens, deveria buscar e encontrar em si, e exclusivamente em si, em vez de nas coisas exteriores, aquilo de que precisava: a felicidade. Nascia desse princípio, cujas raízes são políticas, a autarquia como ideal de felicidade por ser, a virtude, autárquica, logo, basta a autarquia da virtude para ser feliz. Então, armado de virtudes, qual seja, da sabedoria divina, o homem nada teria a temer sobre a terra. E a virtude por excelência, dentre todas, era a ataraxia, termo que designa “tranquilidade-imperturbabilidade da alma”, porém conquistada somente mediante a ausência das paixões. Pronto! A felicidade coincidiria com a tranquilidade da alma e isso nos seria possível, concordamos. E “concordamos” por que? Porque as paixões a perturbam por serem, todas, egoístas, imediatas, cobiçosas, violentas, e más, ocasionando um rastro de dores em seu trânsito. A paixão é o amor sensual, quero dizer, é o amor pelas coisas materiais-sensíveis cujo limite é o corpo, mas todas elas são transitórias por se desgastarem com o uso e/ou o tempo. Ora, exatamente por serem assim, fugidias e levianas, causam o afastamento do homem do encontro com a verdade que, justamente por ser eterna, é a única capaz de o tornar feliz, porquanto a verdade é o assentimento da alma às impressões que lhe causam as coisas materiais, a verdade é a certeza absoluta, é a evidência.

Como estamos vendo, a busca do ideal de felicidade plena e absoluta não tem sido fácil por sempre esbarrar no anteparo das paixões. Noutras palavras, ninguém poderá ser feliz sem se compreender como sendo uma natureza composta por corpo e alma/entendimento. Destarte a felicidade somente será possível quando, adquirido aquele equilíbrio dinâmico entre suas duas partes, o corpo se submeter ao espírito e não este àquele, senão o homem igualar-se-ia aos irracionais que não pensam, porquanto se deixam conduzir tão-somente pelos seus livres instintos. Eis porque para eles não existe lei-legalidade, mas apenas para nós, os racionais.

Não será com a falsíssímo princípio de macerar o próprio corpo, esforçando-se para eliminá-lo de si, que iremos ser felizes, mas sim cuidando tão bem dele como cuidamos da nossa alma, segundo pensa o Espiritismo, nem tampouco cuidar da nossa alma como se não tivéssemos corpo, na medida em que teremos que dar conta de ambos à nossa consciência ética e espiritual. O uso do corpo deve ser natural, conforme visualizamos em a natureza, mas longe do abuso antinatural que nos conduz ao cansaço, ao esgotamento, e à diminuição do tempo de vida.

Em o “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, XVII, 11, encontramos belíssima mensagem trazida pelo Espírito JORGE: “Ambos, corpo e alma são necessários um ao outro devido às suas relações”. Em suma, a felicidade é possível, desde que não amemos ao corpo mais do que a alma e nem a busquemos fora mas sim dentro de nós próprios.



Joel F. de Souza
bigjoel@terra.com.br

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