Repetimos tão constantemente tal jargão ao ponto dele haver se tornado popular e, justamente por “haver se tornado popular” foi que acabou por banalizar os nossos atos mais torpes. Certamente tivemos os bons exemplos dos a quem imitar e assim vamos justificando aquelas nossas atitudes que, sejamos sinceros, não gostaríamos de sofrê-las em nossa própria pele.
Por que adotamos tal desculpismo, o da “carne ser fraca”? Por pelo menos dois motivos:
1º) Por isso nos ser conveniente; e
2º) Por julgarmos permanecer ocultas de tudo e de todos, aquelas nossas ações.
Mas, santa miséria, à consciência nada podemos ocultar por ser ela o juiz supremo, logo, incorruptível, das nossas ações. E sobre qual fundamento se legitima e, consequentemente, se sustenta tal autoridade, a da consciência ser “o nosso juiz supremo”? Sobre algo que se confunde com ela mesma e, por isso, extremamente simples de ser identificado: o ser pensante não pode, por mais que tente, nem por mais forte que seja esse o seu desejo, mentir, enganar-se a si mesmo. Experimente, se for capaz. Eis aqui então, a partir de sua única característica, a impossibilidade de se enganar, característica que ao fim e ao cabo se confunde com ela, o conceito do que venha a ser “consciência moral”: é a nossa mais elevada capacidade psíquica-espiritual por ser o conhecimento de si mesmo e de si mesma, pois é a nossa única faculdade capaz de julgar com isenção os nossos comportamentos, logo, é uma faculdade moral; e justamente por ser “moral” é também dotada da ética – o princípio da moral –, uma vez que a julga aquela. Assim sendo, fracassa aquele nosso falso advogado de defesa quando o evocamos pelo nome, “a carne é fraca”, pois ele em nada pode nos defender de nós mesmos bem como, aliás, coisa alguma pode nos defender de nós mesmos. Desse modo, se lhe é impossível “mentir ou enganar a si mesma”, a consciência mantém, e necessariamente, um contato permanente com a Verdade, porquanto sempre sabe quando age errado, ou falsamente.
Contudo, mesmo sabedores da consciência se confundir com o mais alto juízo de valor, a Verdade, tornando-se uma só coisa com esta, vamos ajeitando os nossos deslizes morais e deixando-nos conduzir como se de nada do acima soubéssemos, inocentando-nos de tudo. Afinal, somos todos “tão bonzinhos”!... Todavia, tais tentativas de auto-afirmação corrompem-nos cada vez mais.
Mas “como”, indagava-me, inquieto, “conhecendo tão intimamente a Verdade, o homem consentia em afirmar o seu contrário, negando-a?” Foi por me achar atordoado, desde muitos anos com aquela proposição, com o não entendimento de tamanha contradição, que passei a investigar as causas da origem de sua enormidade, quero dizer, daquele dito descabido, daquele absurdo, daquela barbaridade, pois certamente algo de muito grave deve ter nos ocorrido para proclamarmos tal insanidade como se fosse verdadeira, cometendo assim a maior de todas as imposturas, qual seja, a de negarmos o conhecimento da própria Verdade. E encontrei finalmente o que tanto procurava!
Ora, se por mais que tentemos não podemos nos auto-enganar, então a consciência existe em todo e qualquer espírito como sendo-lhe uma ideia inata e, se é universal e se é incorruptível, então como pôde o nosso mais extremado juiz se deixar embair nessa falsidade, a de que “a carne é fraca”?
A expressão, paradoxal, “a carne é fraca”, é neo-testamentária e teria saído da boca do próprio JESUS de Nazaré que, contrariamente, sempre proclamara a soberania do espírito sobre a carne! Segundo Mateus, 26, 41 e Marcos, 14, 37-38, o Mestre teria dito a PEDRO, ao retornar do Getsêmani: “Simão, estás dormindo? Não foste capaz de vigiar por uma hora? Vigiai e orai para não entrardes em tentação, pois o espírito está pronto mas a carne é fraca”.
Qual é o problema no interior desta sentença? É a de que apesar da “carne ser fraca” em relação ao espírito que é “forte”, a carne acabou por enfrentá-lo e vencê-lo, considerando que PEDRO dormira! A carne demonstrou, assim, não ser tão fraca quanto se pensara. E algo mais grave ainda: JESUS teria se enganado ao enunciá-la? Não, não se enganou, porquanto os fatos ocorridos consigo terminaram por provar o contrário, o de provarem que o espírito é forte e, por contradita, “a carne é fraca”, na medida em que foi em espírito, e não em carne putrescível, que JESUS ressurgiu como vencedor da morte, passando conosco quarenta dias e noites. Mas – e lamentamos por isso –, infelizmente, o “Nazareno” não nos explicou os motivos daquela aparente contradição, a do espírito ser imortal, logo, forte, e dever temer a carne considerada “fraca”! Convenhamos: qualquer fé lastreada em âncora tão frágil não pode mesmo ser capaz de arrostar a razão frente a frente em todas as épocas da humanidade. Eis a causa pela qual o Espiritismo se coloca frontalmente contra tais desculpismos escapistas, como acabaram se tornando os nossos atos depois daquele evento, por tais “desculpismos” ferirem a nossa consciência moral. Consequentemente, aquilo tudo está a exigir uma boa explicação.
Ei-la: onde teríamos escondido a nossa responsabilidade moral caso tudo imputássemos à “fraqueza da carne”? E mais: ter-nos-ia sido possível enunciar isto que acaba de ser enunciado e lido pelo espírito sem o próprio espírito não ter a consciência de havê-lo dito? Impossível! Se não é possível, então para onde pensamos haver alijado o espírito, tratando-o como um ser inconsciente de si mesmo? A consciência moral em nós, sediada no espírito como o seu mais alto tribunal por ser capaz de esquadrinhá-lo completamente sem nada lhe ficar ocultado, é a entidade que nos indica se algum ato, nosso ou alheio, é justo ou não. “A consciência é a capacidade que o espírito tem de inspecionar a si mesmo”, conforme corretamente entendeu e exarou o excepcional filósofo alemão, HEGEL (1770/1831), e como ela é natural-inata, por não nos haver sido nem ensinada e nem imposta por uma vontade exterior à nossa, então sentimo-nos tranquilos ao afirmar que desde antes do nascimento trazemos conosco essa faculdade de julgar com retidão e precisão à qual os pensadores escolásticos denominaram “sindérese”(1). Pois bem, a consciência não se torna consciência pois ela já era, desde antes de sermos, consciência, isto é, ela já era capaz de conhecer para corrigir os erros da razão e dominar os desvios dos apetites sensíveis, ou melhor, sempre foi capaz de realizar as suas ações.
Complementando: se é assim, então a consciência está a nos apontar para um substrato teórico, a reencarnação, pois “consciência” só pode ser entendida como “consciência em alguém” existente antes de haver surgido no mundo das formas sensíveis, logo, no mundo donde proveio, o espiritual: a consciência é essencial à alma, confunde-se com a alma. E se ela é dita “natural”, então todos a temos e não nos é possível descartá-la, permanecendo imortalmente em nós. Possuindo essa autoridade natural advinda daquele seu contato com a Verdade, então podemos introduzir em nosso texto o pensamento do notável filósofo francês RENE DESCARTES (1496/1650), cognominado “O Pai da Filosofia Moderna”, em sua terceira meditação metafísica: “a idéia de DEUS em nós é inata, pois esta impera no homem como a marca do autor em sua obra”. Ora, se é assim, como então a consciência “forte” ainda se deixa iludir, nos dias atuais, pela carne “fraca”? Não é isso no mínimo estranho, sendo a consciência anterior à carne? E mais ainda: se a consciência é anterior à carne por ser inata, então ela é imortal, o que a caracteriza como sendo “divina”, derivando disso que os seus valores morais sejam todos de natureza divina. Por extensão de raciocínio, podemos inferir daqui o fundamento da moral, o fundamento pelo qual a consciência é moral: a Verdade, o que implica em que a consciência conhece a Verdade e mantém com esta um contato íntimo e profundo. E se a Verdade é DEUS, então homem algum, espírito algum, consciência alguma, desconhece o seu Criador!
Intrigado com as correlações entre a consciência, DEUS, e as Leis de DEUS, ALLAN KARDEC perguntou sobre esse assunto aos Espíritos superiores na Pergunta 621 d’“O Livro dos Espíritos”: “Onde está escrita a Lei de DEUS?”. “Na consciência”; foi a resposta, lacônica por ser óbvia, e tanto o foi que o Codificador encerrou o seu questionamento. Eis aí a causa da “consciência ser incorruptível”, é por ela provir do nosso Criador.
E retorna aquela instigadora questão: por que, então, o espírito deveria temer a carne se ela é, como sempre foi e será, “fraca”, e ainda mais por ser, a consciência, forte? Uma das duas alternativas terá que ser a verdadeira: ou o espírito é forte e “a carne é fraca” ou o inverso.
A questão passa a se encaminhar célere para o seu esgotamento quando sabemos que o homem é um ser complexo por ser formado por espírito e carne; mas mesmo o homem sabendo ser o espírito superior ao corpo, deve manter-se vigilante quanto às paixões deste – todas carnais – para delas não tornar o seu espírito, ou seja, a sua parte mais nobre, por ser anterior e superior ao corpo, escravo deste ao invés de senhor, cedendo o seu posto ao que lhe é inferior.
Qual a causa de toda essa ocorrência? Tudo isso ocorre por causa do espírito se encontrar intimamente unido ao corpo, formando com este um conjunto, numa situação que lhe permite sentir os abalos que agitam a carne e podendo então se deixar levar pelos apelos desta. Não foi sem motivo que o filósofo SÓCRATES de Atenas (469/399 aC), “O Pai da Filosofia”, disse aos seus discípulos na obra que relata o seu canto de cisne, o seu belo livro, “FÉDON, ou da Alma”: “Então a alma, dizíamos, é arrastada pelo corpo na direção daquilo que jamais guarda a mesma forma, ela mesma se torna inconstante, agitada, e titubeia como se estivesse embriagada: isso por estar em contato com coisas desse gênero”.
Se é assim, se o homem tem essa constituição natural-inata como alma-corpo, como devemos fazer para não escravizarmos a nossa parcela divina e superior à terrena e inferior? Pela descoberta, pelo autoconhecimento, da nossa verdadeira natureza. E como o espírito deverá proceder para não se submeter às paixões – emoções em alto grau de intensidade que se sobrepõem à lucidez da razão –? Também pela descoberta, pelo autoconhecimento, de possuirmos em nós os instrumentos para vencê-las: a vontade livre que, por ser livre, se torna soberana a tudo e a todos e, consequentemente, forte, imbatível, e invencível. E a vontade, exatamente por ser soberana, impõe a si mesma, com o fim de cumprir em si mesma, a Lei de DEUS nela insculpida, e o faz conscientemente, quero dizer, moralmente, tanto que o faz com e por consciente liberdade. Qual é a consequência disso? Doravante a carne será entendida como sempre deveria ter sido, “fraca”, porque é da sua natureza sê-lo em seu embate com o espírito.
Conclusão: a expressão “a carne é fraca” será sempre entendida como verdadeira quando o homem-espírito que a enunciar tiver consciência da sua natureza constitutiva, sobrepondo o espírito ao corpo, mas será sempre entendida como falsa quando o espírito-homem se deixar conduzir, inconscientemente, pelos instintos asselvajados oriundos da carne.
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NOTA DO SITE:
(1) Sindérese: capacidade espiritual inata, espontânea e imediata para a apreensão dos primeiros princípios da ética, capaz de oferecer intuitivamente uma orientação para o comportamento moral.