Simão Pedro desperta, além da vida humana.
Retoma, pouco a pouco, as forças da memória
Terminara, por fim, a luta insana
Do flagelo por grande pesadelo
Recorda a cruz do fim, levantada ao avesso,
Que aceitara na Terra por vitória...
Sabe que está no Além, pensando em recomeço
Do próprio apostolado...
Onde estaria o Mestre Sempre Amado?
E os outros companheiros
De ânimo nobre e forte,
Que o haviam no mundo, precedido,
Sob a perseguição sem pausa e sem sentido,
Ao encontro da morte...
A brisa da manhã suave e cristalina
Trazia-lhe perfume ao leito novo e alvo...
Indagara Simão: “Que surpresa teria?”.
Tocou o próprio corpo, achou-se são e salvo
E chorava, enlevado, em suprema alegria...
Alguns instantes mais e ouviu, enternecidamente,
Cânticos de louvor e saudação;
Alguém surgiu à porta, de repente,
Envolto em doce luz
A doar-lhe conforto e proteção...
Pedro entendeu quem era a bradou-lhe: “Jesus!”.
Erguendo-se, em seguida,
Leve e ágil, gritou: “Ave, Senhor da Vida!...”.
Cristo abeirou-se dele, a enlaçá-lo sorrindo,
Depois vieram outros companheiros,
Instrutores, amigos, mensageiros,
Do júbilo fazendo o festival mais lindo...
Pedro enxergou, feliz, os vergéis exteriores...
Eram jardins imensos,
Recheados de flores...
Em profunda euforia,
O ditoso Simão
Tomou a si a mão
Que Jesus lhe estendia
E disse, quase em pranto:
‒ Senhor; estou cansado,
Não mais me distancies de teu lado.
Trago comigo a dor
Dos que moram no mundo,
Aquele imenso caos, cada vez mais profundo,
De penúria, fadiga e sofrimento.
Não desejo perder as luzes que hoje alcanço,
Permite-me, Senhor ficar contigo,
Neste celeste abrigo.
Necessito de paz, de socorro e descanso...
Ao mundo de onde venho,
Pelas tribulações padecidas no lenho,
Não mais quero voltar.
Desejo aqui viver contigo, neste lar...
Mas Jesus apontou-lhe o imenso espaço à frente
E falou-lhe a sorrir:
‒ Fica, Simão, se estás contente.
Estes sítios são teus,
Tanto quanto de todos os irmãos
Que serviram, na Terra, à bondade de Deus...
Cristo fez pausa e, logo após,
Explicou: “Quanto a mim,
Não posso repousar;
A construção do bem é o meu lugar.
Ouve, Simão!... Enquanto
Houver na Terra um só gemido
Numa gota de pranto,
Enquanto houver no mundo um coração caído,
Devo esforçar-me por permanecer
No trabalho do amor que é meu dever.
Mas, descansa, Simão!... Ver-nos-emos depois,
Nunca houve distância entre nós dois...
Afastou-se Jesus,
Entretanto, Simão fitando o Excelso Amigo,
Bradou sem vacilar:
‒ Senhor, eu vou contigo!...
No passo firme do Divino Mestre,
Ambos se retiraram das Alturas,
Buscando a direção das faixas obscuras
Da vastidão terrestre...
Na retaguarda, em paz, ficou a multidão
De almas angelicais, numa doce canção,
Cujo estribilho recordava
Esta expressão de luz dos hinos galileus:
‒ Louvado seja o amor!... Bendito seja Deus!...
Por Antônio Sávio de Resende - Tonhão - email: asavio@uaivip.com.br; asavio06@uol.com.br; asavio921@uol.com.br; asavio10@uai.com.br e asavio.fcvv@gmail.com
Do livro Alma e vida, de Maria Dolores, por Chico Xavier - Ed.CEU.