Vladimir Polízio



Séculos de pesadelo

20-03-2013

Existem duas situações claras e definidas: falar de pessoas e de instituições.

De pessoas, é muito natural que as mudanças aconteçam, como sinal de amadurecimento, de progresso, de avanço. Muitos de nós têm essas duas fases bem distintas: o antes e o depois. Na medida que compreendemos os porquês, abrem-se os caminhos do entendimento e as opções se sucedem.

Mas quando se trata de instituição, a coisa muda de forma radical, principalmente se estivermos no campo religioso e, de maneira especial, na condição de seguidores do Cristo e de representantes de Deus da Terra.

Portanto, enquanto pessoa, todos tropeçam, ferem-se, alguns levantam-se e outros acautelam-se através da prudência e de uma atenção mais acurada, procurando não mais incorrer em erros. Como instituição, é inaceitável, inadmissível qualquer procedimento contrário aos princípios abraçados. E foi justamente isso o que se viu.

Não fomos buscar na literatura espírita, relatos e justificativas para compreender os desatinos e crueldades constatados. A história está farta de informações e detalhes acerca de procedimentos torpes, vis, e sempre “Em nome do Criador”, “Em nome de Jesus”, ou “Em nome do Cristo”.

O pior registro, sem dúvida, está relacionado como os cerca de 600 anos de Inquisição, nome dado aos tribunais estabelecidos em certos países, para perseguir e punir todos aqueles que fossem considerados hereges, ou seja, que tivessem posição religiosa contrária à igreja (entenda-se aqui a igreja como sendo o entendimento católico).

Os bispos detinham forte poder e eram convocados a entregar à justiça católica, todos os que se recusassem a converter-se.

Foi no Concílio de Verona (Itália), em 1183, que se lançou as bases da Inquisição, e a partir de 1233, esse tribunal especial foi confiado aos Dominicanos, cujo embrião, desenvolvendo-se como praga, se propagou na própria Itália e em outros países, notadamente na Espanha, onde tomou o ofensivo nome de “Santo Ofício”, criando fortes raízes e tornando a instituição poderosíssima que deixou tristes e vergonhosas recordações ligadas ao catolicismo e a dois grandes e temíveis inquisidores: Torquemada (Tomás de Torquemada - 1420-1498) e Ximenes (Francisco Ximenes [ou Jimenes] de Cisneros – 1436-1517), bispos que assumiram integralmente a missão dessa organização criminosa. A história conta, ainda, que a característica principal do modo de proceder da Inquisição era o segredo absoluto da instrução judiciária.

Em Portugal, pelo ano de 1536, foi D. João III que introduziu a Inquisição, criando tribunais efetivos em Lisboa, Évora e Goa e temporários em Coimbra, Lamego e Tomar. Os registros dão conta de que o primeiro auto-de-fé de Portugal foi celebrado em Lisboa, na Ribeira Velha, em 20-9-1540.

Conta-se, de acordo com o que está anotado historicamente, que esses números não sejam verdadeiros, que durante os dois séculos que a Inquisição imperou entre os lusitanos, foram queimadas, somente lá, cerca de 1.500 pessoas e condenadas a diversas penas mais de 25 mil, ignorando-se, contudo, o número das que morreram nos cárceres e as desaparecidas. O estadista português Sebastião José de Carvalho e Melo, conhecido como “Marquês de Pombal”, foi o responsável pela redução considerável do poder do Santo Ofício, extinto a partir de 1821, não sendo, por isso, muito bem visto pelos religiosos católicos. Quanto à Espanha, foi Napoleão que o suprimiu, em 1808, tornando a vigorar de 1814-1834.

O fanatismo e a ambição, a partir do ano 313, quando o imperador romano Constantino I, o Grande, decretou o cristianismo (catolicismo) como a religião oficial do império, foram as características marcantes dos que dominaram, cujos reflexos e resquícios estão ainda vigentes e se estenderão por mais alguns séculos no globo terreno. Prova disso foi a interferência em inúmeros reinos e povos onde seus mandatários eram sumariamente destituídos ou substituídos por ordem da igreja, quando não atendessem aos seus interesses.

ALGUMAS VÍTIMAS INFLUENTES DO SANTO OFÍCIO

Personagens como o reformador checo João Huss (1370-1415) e seu discípulo Jerônimo de Praga (1374-1416); Joana D’Arc (1412-1431), que dizia falar com Espíritos; o religioso Urbano Grandier (1590-1634), Cura Loudun, acusado de influenciar e incitar o demônio contra recintos religiosos; o magistrado francês Anne Du Bourg (1521-1559), por ter recomendado clemência aos protestantes; William Laud (1573-1645), arcebispo de Canterbury; Giordano Bruno (1548-1600), escritor e frade italiano, foram algumas dessas milhares de pessoas que o Santo Ofício executou, sendo amarradas e colocadas sobre fogueira, que ardia até reduzir tudo a cinzas. O filósofo e impressor francês Estevão Dolet (1509-1546) foi sacrificado numa variante da Inquisição, sendo primeiro enforcado e depois queimado.

O italiano Galileo Galilei (1564-1642), por ter proclamado que o centro do mundo planetário (conhecido até então) era o Sol e não a Terra, foi chamado pelos inquisidores e acabou concordando com a imposição da igreja, que já havia dado anteriormente sua posição sobre o sistema, sendo a Terra achatada e suspensa por quatro elefantes. Porém, retornando a Florença, reuniu seus conhecimentos num livro, em 1632, o que provocou a ira da Inquisição, tendo Galileu, de joelhos, desmentido suas afirmativas, para não ser queimado.

O brasileiro Francisco Melo Franco (1757-1823), poeta satírico, autor de ‘O Reino da Estupidez’, ficou quatro anos nos cárceres do Santo Ofício como herege; o padre Antônio Vieira (1608-1697), célebre, orador sagrado e escritor jesuíta, embora português, veio criança para o Brasil e aqui se desenvolveu, também sentiu o peso da Inquisição, ficando recluso por três anos. O comediógrafo Antônio José da Silva (1705-1739), criado em Portugal mas nascido no Rio de Janeiro, regenerou o teatro nacional com suas comédias, cheias de graça e de espírito inventivo. Embora fossem católicos, ele, sua esposa e sua mãe foram acusados de integrarem o judaísmo, e, por sentença da Inquisição, foram todos ‘condenados’ à morte, pela fogueira, em Lisboa.

Não foi somente esse episódio da Inquisição que abalou a estrutura do catolicismo, em termos de chacina. Antes dessa matança indiscriminada, pelo ano 1095, o papa Urbano II concebeu no Concílio de Clermont, a idéia de uma peregrinação poderosa destinada a conquistar Jerusalém, considerada como Terra Santa. A idéia era arrancar o Santo Sepulcro das mãos dos muçulmanos. Essa força passou a ter várias denominações, organizadas militarmente, como Cruzadas, Templários, Hospitalários, e Ordem de Cristo. E a finalidade foi sempre a mesma: a conquista através do suplício e da execução.

E com isso, a partir de 1291, a Ordem foi suprimida e, através de mais um ‘processo’, seu último grão-mestre Jacques de Moley (1244-1314) foi preso e condenado ao procedimento cruel em vigor.

Mas, por fim, outras barbáries tiveram lugar em regiões distintas.

Vamos nos ater, para finalizar, à questão do tratado convencionado na cidade francesa de Saint-Germain, onde foi assinado, em 1570, a paz entre os católicos e protestantes, isso em plena vigência do Santo Ofício.

O casamento de Henrique de Navarra, depois Henrique IV, com a irmã de Carlos IX, que era rei da França, atraíra a Paris grande número de nobres protestantes, e foi justamente no dia seguinte ao da cerimônia que a horrível carnificina começou. Num gesto traiçoeiro, na noite de 23 para 24 de agosto de 1572 e que se prolongou ainda por muitos dias, instigados por Catarina de Médice e com o assentimento real, cerca de 25 mil pessoas sucumbiram ao ferro dos assassinos, ficando esse ato conhecido como “A Noite de São Bartolomeu”.

E nós, que tivemos a oportunidade de conhecer a história da história, nos indignamos com o entendimento e o cumprimento deturpado dos ensinos que Jesus nos deixou, afirmando que não veio mudar a lei e que toda conquista deveria ser feita através da brandura, da mansidão, do amor...

“Enquanto uma gota de sangue correr na Terra pelas mãos do homem, o verdadeiro Reino de Deus ainda não terá chegado, esse reino de pacificação e de amor, que deve banir para sempre do vosso globo a animosidade, a discórdia e a guerra”. Adolfo, Bispo de Alger, Marmande, 1861 – Cap. XII do Evangelho segundo o Espiritismo).

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Vladimir Polízio
polizio@terra.com.br

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