Vladimir Polízio



Reflexos de humildade

15-11-2011

Muito se fala desse substantivo.

Na verdade, é um dos ícones para se alcançar a suprema glória, ladeado pela caridade, tão bem explicitada pelo Divino Amigo.

Mas, se por um lado é muito fácil falar dela ou sobre ela, por outro, percebemos que muitos dos que a abordam, não agem de conformidade com o ensino que transmitem.

Isso nos faz lembrar de uma historieta muito difundida no meio espírita, a respeito de um indivíduo que frequentava regularmente determinado Centro. Como se preocupava com os ensinos que eram passados, mostrava-se presente já nos primeiros lugares, para não perder um só segundo de instrução.

E assim foi por muito tempo. O instrutor, com toda a experiência e prática na vida e no meio doutrinário, usando dos recursos que lhe eram próprios, empregando frases e palavras sempre diferentes, de forma a exibir seu amplo conhecimento e, do outro lado, como assistente e na condição de instruendo, aquele que não faltava às aulas por nada, nem em dias de frio ou chuva.

Passado certo tempo o instrutor foi visitado pela morte. Sem que houvesse simultaneidade, aquele frequentador assíduo da Casa Espírita também voltou à sua antiga morada.

Não se encontraram de imediato.

Alguns meses passaram, sem que se vissem.

Um belo dia, estando ambos acomodados em certo salão, onde se aguardava personalidade de plano mais elevado para discorrer sobre importante assunto, eis que o antigo instrutor depara com eu velho “discípulo” e, algo entusiasmado, manifesta-se:

─ “Como vai você, meu amigo, faz muito tempo que não o vejo?” e o surpreende com um forte e fraterno abraço e uma outra pergunta:

─ “Como pode você, frequentador por muitos anos de nosso Centro na Terra, embora sempre na condição de aprendiz, apresentar-se com essa luz tão intensa?”

Muito surpreso com aquele momento e por constatar que seu antigo expositor se exibia de forma apagada, sem qualquer indício de domínio ambiental, em relação à aura que o envolvia, preferiu nada dizer. Porém, dado à insistência a que era compelido, embora constrangido com a opacidade de seu interlocutor, disse:

─ “Meu amigo, fiz tudo conforme você nos ensinava; a cada nova lição acrescentada, eu percebia a mudança, dia após dia. Não perdi um momento sequer”.

De fato, a diferença está em fazer ou deixar de fazer.

Por isso mesmo reconhecemos que é fácil falar de humildade ou sobre humildade. O difícil é praticá-la.

Exemplos, naturalmente, não faltam para ilustrar qualquer fato que implique nas questões ligadas à humildade.

Lacordaire, em trecho de uma de suas mensagens a Kardec, enfatiza: “Despertai meus irmãos, meus amigos! Sede generosos e caridosos, sem ostentação. Fazei o bem com humildade. Cada um vá demolindo, aos poucos, os altares elevados ao orgulho”.

Para finalizar essa linha de raciocínio simplista, buscamos a figura histórica de Cornélia, filha de Cipião, "o Africano", de ilustre família patrícia da Roma antiga, pelo ano 200 a.C.

Tendo ficado viúva e com doze filhos, a morte a visitou inúmeras vezes, levando nove deles, restando-lhe, ao final, apenas três, sendo dois homens e uma mulher. De caráter forte e Espírito culto, educou seus filhos com o maior esmero, inspirando-lhes o amor e respeito aos bens públicos e ao povo.

Tanta era sua ventura em relação aos filhos, que, às vezes, perguntava se sempre a chamariam “a filha de Cipião” e não “a mãe dos Gracos”, como gostaria, numa referência ao sobrenome.

Um dia, uma rica patrícia romana, mostrando-lhe as suas exuberantes e fartas joias, pediu para ver as de Cornélia, que não titubeou e apresentou-lhe seus filhos, dizendo: “Eis as minhas joias e adornos preciosos”.


Vladimir Polízio
polizio@terra.com.br

Voltar para a página anterior / Voltar para a página principal