Vladimir Polízio



Você conhece os mecanismos da vida?

01-07-2018

Muitos dos nossos irmãos do caminho imaginam ser possível, de maneira prática e simples, porém carregada de ingenuidade, promover resultados que influenciem na saúde, no físico e no espírito, com a intenção única de quitar ou de iniciar a quitação dos débitos que julgam ter contraídos ao longo da existência. Instrumento de mortificação, de penitência enfim, como meio de reparação a falhas reconhecidas são meios empregados com a certeza do perdão, da remissão das faltas. Os tormentos dessa natureza são reconhecidos como cilício(1), devendo este nome às antigas cabras da Cilícia(2), cujos pelos, ásperos e eriçados com pontas de arame, serviam para macerar o corpo.

Essa prática remonta séculos e ainda persistem em diversas partes do globo. Certo é que esse costume, para alguns, representa um espetáculo que merece ser apreciado ou àqueles que facilmente se sugestionam ante os quadros que exteriorizam o martírio, a tortura, qualquer que seja o seu nível, e deprimente para outros, cujo ato é visto como desprovido de qualquer sentido altruístico ou mesmo com resultado prático e eficiente para alguma coisa.

Cada um de nós, ao chegar à Terra para o exercício do estágio regular que aqui fará, traz consigo o mapa-livro respectivo de sua trajetória na vida. Como a gravidez e o nascimento não se constituem num fator de surpresa para a espiritualidade superior, embora o seja para os encarnados, este poema religioso que o diga ao expressar a condição anterior do corpo físico para a recepção da alma: "Os teus olhos me viram a substância ainda informe e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nenhum deles havia ainda" (3). Algumas linhas dessas páginas já virão impressas e corresponderão ao período previamente estabelecido com datas imutáveis, como a chegada e partida do espírito deste mundo –"A fatalidade, verdadeiramente, não consiste senão na hora em que deveis aparecer e desaparecer deste mundo"(4) –, e outras gravações importantes, como problemas de saúde e assuntos pertinentes à grande Lei da Vida. As demais páginas em branco, estas sim, dependerão de nossos atos e decisões ao longo da existência.

Não obstante as dificuldades normais que a existência física oferece a cada ser, observa-se que há, ainda, um número elevado daqueles que buscam desafios extraordinários que vêm somar aos já citados. É uma realidade marcante não só para os que voluntariamente buscam outros tormentos, como igualmente transferem boa dose de angústia que se alastra para os familiares mais próximos e os amigos até então assim considerados.

O cilício ou o tormento voluntário tem seu registro no início da era cristã. Um destacado personagem religioso daqueles tempos, São Jerônimo (Eusebius Hieronymus Sophronius – 342-420), sacerdote da igreja cristã, historiador e autor da tradução do Velho e do Novo Testamento para o latim, chamada Vulgata(5). Agressivo e violento em suas oratórias pois falava o que pensava e não usava de meios termos ‒ palavras de seus próprios companheiros de então ‒, São Jerônimo fazia uso desse recurso de flagelo, martirizando-se com pedras contra o peito quando pensamentos desvairados lhe ocorriam.

Conta-se que em certa ocasião o Papa Sisto V (1521-1590), contemplando uma pintura com a imagem de Santo Jerônimo golpeando o peito com uma pedra, disse: "Fazes bem em utilizar essa pedra, porque sem ela, a Igreja nunca o teria canonizado"(6).

Em alguns estados e cidades do Nordeste brasileiro, em períodos de festas católicas, encontramos os que ainda se utilizam do autoflagelamento, chicoteando as costas que sangram copiosamente. Esse comportamento de agressão voluntária ao corpo físico continua acontecendo nas localidades onde são prestadas as reverências religiosas. São hábitos, são costumes arraigados às comunidades que ainda veem nesses atos um benefício promissor.

Outro registro que temos catalogado refere-se às décadas de 1970 e 1980. Nesse período, no acostamento da rodovia Anhanguera, no trecho compreendido entre a Capital paulista e a cidade de Jundiaí, especialmente nos finais de semana e na parte da manhã, singela movimentação de pessoas adultas e jovens era observada utilizando-se do acostamento. Com número sempre pequeno, entre 3 e 5 indivíduos, chamavam a atenção pelo comportamento estranho durante o trajeto, pois cada um desses integrantes, curiosamente, trazia consigo pedras de variados tamanhos sendo carregadas da forma como podiam. Um suplício e tanto, pois o peso de cada pedra impressionava. Numa das vezes em que esse diálogo foi possível, apurou-se que essas pessoas pertenciam ao grupo TFP - Tradição, Família e Propriedade e, que durante as reuniões, eram passadas orientações aos seus integrantes no sentido de promoverem esse sacrifício de purificação em benefício próprio.

Há, ainda, uma outra questão que também pode ser enquadrada como forja de sofrimento, como que fazendo parte desses tormentosos e espontâneos momentos por que passam esses indivíduos e o grupo familiar a que estão vinculados.

A palavra desaparecer está bem colocada para este desagradabilíssimo assunto, visto tratar-se de pessoa que deixa de ser vista, ocultando-se ou sumindo.

A verdade é que no Brasil, cerca de oito pessoas somem a cada hora, alcançando a assustadora contagem de mais de quase 70 mil desaparecidos a cada ano.

As idades? ‒ estarão perguntando ‒ Estas variam, indo de crianças a adultos, casados ou solteiros, que simplesmente deixam seus lares sem nunca mais regressarem ou dar-lhes qualquer satisfação ou mesmo notícia.

São poucos, muito poucos mesmo os que retornam; são quase raros. As crianças, por não conhecerem a redondeza geográfica, não vão longe e em breves dias são localizadas e trazidas de volta. Já com os mais velhos não acontece o mesmo; saem de casa normalmente e não voltam nunca mais.

Conhecendo o cotidiano, observa-se que na maioria das vezes, quando os problemas se avolumam, estes acabam afetando a estrutura emocional da pessoa que acredita ter uma carga tributária além de suas condições físicas, quando o assunto se refere aos problemas da vida; alega-se que o fardo apresenta-se com peso muito maior do que se é capaz de suportar. Ao irritar-se com as tribulações, contribui com o aumento do desânimo, o que fará sentir-se mais frágil, ainda.

Um exemplo interessante podemos oferecer para quem traz consigo esta manifestação de dúvida. Nos dias atuais é muito normal nos noticiários o repórter mencionar a temperatura de certa cidade, dizendo que o frio é intenso, com os termômetros marcando 15 graus, porém, a sensação térmica é de 10 graus. Ora, como se pode medir uma sensação? Sabemos que o estado de fragilidade emocional e a insegurança são capazes de provocar desequilíbrios, e, com a desorganização psicossomática ameaçada, qualquer um estará fora de sua normalidade. Teremos, então, um comportamento diferenciado. Se ontem os 15 graus de temperatura nos deixaram felizes, hoje, dado ao conjunto de fragilidades que nos envolve, só nos sentiremos bem se pusermos um agasalho. Assim também é em relação à vida. Há dias melhores e dias piores, sempre de acordo com o humor de cada um.

Mas, assim se expressa Fénelon (1651-1715), em espírito: "O homem está incessantemente à procura da felicidade, que lhe escapa a todo instante, porque a felicidade sem mescla não existe na Terra". (...) "Em vez de buscar a paz do coração, única felicidade verdadeira neste mundo, ele procura com avidez tudo o que pode agitá-lo e perturbá-lo. E, coisa curiosa, parece criar de propósito os tormentos que só a ele cabia evitar"(7).

Entendemos, com base em todo o exposto, que determinados sacrifícios são muito bem vistos aos olhos de Jesus, nosso divino Mestre, modelo e guia. Porém, para que o mérito esteja presente, vemos a necessidade de estar também presente um motivo coerente e justo, que se resume em unir forças para levantar fundos com o objetivo primordial de auxiliar determinada pessoa que esteja em estado de necessidade, quer para comprar sua medicação, contribuir com procedimentos médicos-hospitalares, ou outras necessidades emergenciais quaisquer.

Sendo assim, vale qualquer empenho, privação ou tormento para que essas dificuldades sejam vencidas em benefício de alguém, lembrando sempre que “O próximo é a nossa ponte para o mundo”.


(1)Cilício: Pequena túnica, cinto ou cordão, de crina áspera, às vezes com farpas, para sacrifício ou penitência.

(2) Cilícia: Em períodos antes de Cristo, Tarso (terra de Paulo) chegou a ser a capital da Cilícia, que hoje integra a região da Turquia.

(3)Salmo: 139-16.

(4)Livro dos Espíritos – Q.859.

(5)Vulgata: Tradução feita do hebraico e não do grego, para o latim. Significa para uso público, voltada para o povo.

(6)Obra Vidas dos santos, de Alban Butler.

(7)O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, Cap. V.

(8)Chico Xavier pede licença, de Emmanuel, com Chico Xavier-GEEM.

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Vladimir Polízio

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