Às vezes, quando menos se espera, fato considerados estranhos acontecem com a maior naturalidade.
Estamos nos referindo às aparições ou mesmo a mensagens que chegam de pessoas, em lugares e momentos inimagináveis.
Para esses casos e situações imprevistas, não há necessidade alguma de se ter algum tipo de mediunidade, mesmo porque essas presenças de espíritos não são constantes.
Existem pessoas, por exemplo, que tiveram um único contato dessa natureza com membros já falecidos da família e que se apresentaram, algumas deixando palavras de incentivo ou de saudade, enquanto que outras apenas sorriram e nada disseram, e outras que se aproximaram para um longo abraço, viraram as costas e se foram, ou, ainda, se fizeram apenas presentes, deixando-se ver por alguns momentos e depois desapareceram em seguida.
Quanto às mensagens também.
Costuma-se dizer, e Chico Xavier falava sempre, que o telefone, quando toca, é de lá para cá. E este caso a seguir é um desses exemplos interessantes que estão espalhados em toda parte do mundo. Acontece quando menos se espera.
“Não é muito conhecido o episódio vivido pelo escritor Álvaro Moreyra, envolvendo o Espírito do grande escritor francês, Anatole France, desencarnado em 1924.
É bom lembrar que Álvaro Moreyra, um dos nomes mais expressivos na literatura nacional, nasceu em 1888 e desencarnou em 1964. Advogado pela Faculdade do Rio de Janeiro, militou no jornalismo e dedicou-se à crônica e à poesia. Membro da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira nº 21 (1959). Autor de: ‘Um sorriso para tudo’, ‘Cocaína’, ‘Caixinha de três segredos’, ‘Tempo perdido’, ‘As amargas não...’, etc...
O episódio a que nos referimos ocorreu em 1959 e chegou a público por narrativa do próprio escritor, conforme foi publicado em ‘Última Hora’, do Rio de Janeiro.
O relato é o seguinte:
‘Há dias que o escritor Álvaro Moreyra está impressionado com o Espiritismo, em virtude de um fato em que foi envolvido.
Álvaro se achava na redação da emissora de rádio onde mantém uma crônica diária, quando foi abordado por um sujeito que ele jamais vira.
Senhor Álvaro Moreyra, disse o desconhecido, trago uma missão muito importante: levá-lo a certo lugar, por solicitação de certa pessoa.
As palavras do desconhecido abriam caminho para o mistério e começaram a intrigar o escritor e a provocar-lhe curiosidade.
Pediu detalhes ao homem, mas este respondia sempre com palavras vagas, alegando que nada mais podia dizer, porque se tratava de uma ordem de uma certa pessoa. Resultado: Álvaro, com aquela bondade que faz dele um mar de ternura, acedeu em acompanhar o estranho.
Levado para uma rua do Estácio(1), o escritor foi introduzido numa sala onde se realizava uma sessão espírita. Feita a corrente, comunicou-se um Espírito que se dirigiu ao autor de “O dia nos olhos” em puro e cristalino francês.
‘Até parece o Anatole France!’, pensou o escritor que se manteve calado.
Pela boca do médium dizia o Espírito:
Álvaro Moreyra, você se acha em uma fase de grande intranqüilidade.
O escritor, calado, escutava. A voz prosseguiu:
Será que você não se lembra do tempo em que se sentava naquela sua cadeira de florões(2) no espaldar(3) e ficava horas a conversar comigo?
Álvaro Moreyra estremeceu ao ouvir falar na sua cadeira, que hoje se acha em casa, abandonada para um canto, com os florões quebrado. O Espírito continua para maior espanto do escritor:
Sim, é aquela cadeira mesmo. Está agora com o espaldar quebrado e você a abandonou. Siga meu conselho, Álvaro Moreyra: Volte à sua cadeira. Volte a conversar comigo, como antigamente.
Quando Álvaro Moreyra conta o fato ao amigos, explica que, efetivamente, há tempos, se sentava na tal cadeira dos florões e ficava horas e horas lendo Anatole France, um dos seus autores preferidos. A esposa costumava aproximar-se dele e perguntar o que estava lendo. O escritor respondia invariavelmente:
Não estou lendo nada, minha filha. Estou “conversando” com Anatole France...’
Nota do Site:
(1) Estácio: bairro na zona norte da cidade do Rio de Janeiro-RJ.
(2) Florões: ornatos que imitam e reproduzem flores; enfeites.
(3) Espaldar: parte da cadeira em que se apóiam as costas de quem se senta.
■ Anuário Espírita de 1978 – IDE – Instituto de Difusão Espírita – Araras-