Vladimir Polízio



A despedida

06-06-2013

Com esse título, a Polícia Militar do Estado de São Paulo registrou episódio dramático envolvendo ex-presidiário, que sentindo aproximar-se os instantes derradeiros da vida, buscou aliviar o peso que seu coração suportava. Este fato ocorreu na cidade de Igarapava, último município paulista às margens da via Anhanguera, SP-330, na divisa com o Estado de Minas Gerais.

Em seu leito de dor, procurou pelo sacerdote e conversou a respeito de suas necessidades. Pediu para falar com um certo oficial da Corporação, pois queria pedir-lhe perdão por algo que ocorrera durante os tempos em que se achava com a saúde física normal.

Atendendo ao pedido que lhe fora feito, esse oficial foi até a residência do solicitante, sendo recebido pela esposa.

Sentado numa cadeira à beira da cama em que o doente se achava, o policial, em cena comovente, segura a mão daquele homem, cujas condições de saúde física estavam precaríssimas, e ouve o relato que lhe é feito:

─ “O que eu não quero é ficar em desacerto com ninguém... Eu vou sossegado, quero viver a minha vida sossegado”; “Quero deixar certo que não tem nada a ver entre nós, entendeu?”. “Quero paz, graças a Deus”.

Ao final da conversa e ao despedir-se, o policial lhe diz:

─ “Fique em paz”.

E o doente lhe responde:

─ “Graças a Deus, eu estou!”.

Assim encerrou-se o triste e comovente diálogo de alguém que queria recompor-se em seus íntimos sentimentos de arrependimento, com o oficial beijando-lhe o rosto, enquanto desde o início mantinha segura uma das mãos do doente, que levantando o outro braço se esforça para colocá-lo sobre as costas do policial, num gesto derradeiro de afeto.

Uma semana após este relato, o doente faleceu.

Não houve qualquer preocupação no sentido de conhecer a religião de ambos os protagonistas deste insólito acontecimento, que por si só traduz um respeito recíproco, também inabitual. Este é um assunto desconhecido. Mas, onde existe o respeito, existe fraternidade; existindo fraternidade existe o reconhecimento de um Poder Divino, que suplanta todos os interesses de ordem material.

Neste episódio podemos configurar aquilo que o Evangelho estabelece como prenúncio de paz: estar bem consigo próprio.

Recompor-se com os possíveis inimigos ou simples adversários é uma necessidade premente do Espírito que desperta, ainda na Terra, vislumbrando a possibilidade de um mundo melhor.

Belo gesto demonstrado da parte do cidadão, significativo registro da Corporação e ato caridoso do oficial, 1º Ten.PM Helder, comparecendo ao leito de morte e estendendo a mão ao que está prestes a partir, numa troca harmoniosa de fluidos: de um lado, o que necessita e pede e do outro, o que pode e assente.

Todos nós, que estamos ainda a caminho, podemos acordar para esse gesto promissor, não obstante os desafios contrários, verdadeiros obstáculos presos ao orgulho e à vaidade, que muitos corações ainda trazem arraigados consigo.

“Reconciliai-vos o mais depressa possível com o vosso adversário, enquanto estais com ele a caminho, para que ele não vos entregue ao juiz, o juiz não vos entregue ao ministro e não sejais metido em prisão. - Digo-vos, em verdade, que daí não saireis, enquanto não houverdes pago o último ceitil” (1).

Há que se observar, sempre, as normas e prescrições contidas nos Evangelhos, pois que, se abraçados estamos aos ensinamentos cristãos, outro não poderá ser o caminho a ser seguido que não o da perfeita compreensão e aplicação do aprendizado deixado por Jesus, a quem chamamos de Mestre, sob pena do grave envolvimento com as forças fluídicas ativas, vínculo esse desastroso ao Espírito, encarnado ou não.

“Na prática do perdão, como, em geral, na do bem, não há somente um efeito moral: há também um efeito material. A morte, como sabemos, não nos livra dos nossos inimigos; os Espíritos vingativos perseguem, muitas vezes, com seu ódio, no além-túmulo, aqueles contra os quais guardam rancor; donde decorre a falsidade do provérbio que diz: ‘Morto o animal, morto o veneno’, quando aplicado ao homem. (...) Nesse fato reside a causa da maioria dos casos de obsessão, sobretudo dos que apresentam certa gravidade, quais os de subjugação e possessão” (2).


(1) Mateus, 5, 25 e 26.

(2) O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec – Ed. Lake-SP



Assista ao comovente vídeo:


Vladimir Polízio
polizio@terra.com.br

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