Outro dia, em pesquisa pelo Google, li um depoimento de uma pessoa intitulando-se como ex- espírita porque, segundo sua justificativa, o espiritismo o deixava muito solto e hoje se encontra plenamente realizado professando uma religião evangélica.
Entendemos que a palavra evangélica tem suas raízes no Evangelho do Mestre Jesus e, portanto, todas as filosofias que O seguem, são evidentemente evangélicas.
O Espiritismo não é exceção, pois é o cristianismo redivivo, buscando a profundidade dos ensinos do mestre da Galiléia, não se fixando, porém, na letra que mortifica, e sim, na essência dos seus postulados que vivifica, como nos alertara Paulo de Tarso (porque a letra mata, mas o espírito vivifica – Cor. III, 6), em suas epístolas. Lembremos que Jesus utilizava muitas parábolas com sentidos implícitos, como brilhantes e criativas ferramentas pedagógicas.
Por solto, entenda-se liberdade, ou livre-arbítrio, um dos pilares básicos da doutrina Espírita e é aí que se encontra a beleza dessa filosofia e em conformidade com os ensinos do Mestre Jesus: “Quando alguém não vos queira receber, nem escutar, sacudi, ao sairdes dessa casa ou cidade, a poeira dos vossos pés”. (Mt. 10, 9 a 15.) Dessa forma, o Mestre nos orienta que a religião não se impõe e ninguém é obrigado a seguir algo que ainda não entenda. A fruta não amadurece antes do tempo. Cada qual tem seu tempo de maturação e partindo dessa premissa, o Espiritismo não se impõe, porém coloca a luz sobre o velador para que todos a vejam e tenham a liberdade de escolha. “Não coloqueis a luz em baixo do alqueire”.
A doutrina Espírita deve ser entendida, compreendida e livremente aceita, em seu tríplice aspecto: filosófico, científico e religioso. O espiritismo não faz proselitismo; a sua missão é a transformação do homem, moral e intelectualmente. Assim como Jesus, o Espiritismo mostra o caminho: “Perfilai pela porta estreita, porque larga é a porta da perdição”, sabedor, no entanto, que ninguém trilha o caminho no lugar do outro; todos têm a liberdade e o direito de seguirem o que melhor lhes convém ou parece convir, até que o direito de liberdade individual passe a interferir no direito de liberdade do semelhante.
E coerentemente, o Espiritismo respeita todas as filosofias religiosas: “As religiões são como as línguas: todas falam de Deus, cada qual no seu idioma.” (Irmão X).
Mas afinal, o que é Liberdade?
LIBERDADE pressupõe-se a propriedade da vontade de todos os seres racionais. Todo ser racional que tenha vontade, tem-se que lhe atribuir necessariamente, a idéia de LIBERDADE, sob a qual deve agir. (Kant)
LIBERDADE DE PENSAR: Pelo pensamento, o homem desfruta de uma liberdade sem limites: O pensamento desconhece obstáculos. Pode-se deter seu vôo, mas não aniquilá-lo. Sem liberdade não há crescimento. Podemos ter as mais belas idéias, mas se somos constrangidos a seguir um modelo muito rígido, não há dinamismo, trazendo-nos profunda sensação de angústia, frustração e desespero. (Kardec - E.S.E. introdução)
O LIVRE ARBÍTRIO é um conceito libertador, uma ferramenta valiosíssima que Deus nos deu para a nossa evolução, deixando-nos a responsabilidade pelos nossos atos menos dignos, livremente praticados, bem como o mérito dos nossos acertos. Somos nós que estipulamos a marcha da nossa caminhada evolutiva, de acordo com o nosso “time”, ou a nossa vontade e disposição. Foi por isso que Jesus nos alertou: “A cada um segundo suas obras” e o Espiritismo traduz, como: “Lei de causa e efeito, ou ação e reação”.
“O Livre Arbítrio é sempre proporcional ao grau de evolução do espírito”. Quanto maior for nosso grau de evolução maior será nossa liberdade e, por conseguinte maior será nossa responsabilidade diante de cada ato: “Muito se pedirá àquele a quem muito se houver dado e maiores contas serão tomadas àquele a quem mais coisas se haja confiado”. (Lc. 12, 47 e 48).
Nesse particular, muitos recuam diante do conhecimento, tentando fugir de cobranças posteriores, porém nos alertam os amigos espirituais que, não basta deixarmos de praticar o mal; a omissão já é um mal, pois estaremos prejudicando alguém pelo bem não praticado e a pessoa mais prejudicada é sempre o omisso. Para praticar o bem é preciso agir.
Lembremos que a Lei de causa e efeito é válida para a boa ou má ação: “Não há uma única imperfeição da alma que não importe funestas e inevitáveis consequências, como não há uma só qualidade boa que não seja fonte de um gozo” .(Kardec – O Céu e o Inferno – VII)
Conclui-se que para termos liberdade é preciso ter conhecimentos: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará!” (Jo. 8, 32) e para tanto, é preciso caminhar.
O Espiritismo constitui uma verdade, porque a verdade absoluta pertence somente a DEUS de infinita justiça, amor e caridade.
Outras verdades, ainda virão à medida da nossa evolução. E aqui, lembramos uma frase de Emmanuel para o querido Chico Xavier:
“Chico, se um dia, eu, Emmanuel, estiver em desacordo com Jesus e Kardec, não fique comigo, fique com Jesus e Kardec e procure me esquecer”.
Cada um de nós porta o germe da Lei de Deus em estado latente, uma fonte de consulta para o nosso despertamento. Em O Livro dos Espíritos, na questão 621, Kardec pergunta aos amigos espirituais: “Onde está escrita a lei de Deus?”. A resposta é direta: “– Na consciência”.
Com todo o respeito ao nosso irmão ex-espírita, podemos afirmar, em opinião particular, que não existem ex-espíritas; muitos passam pela doutrina sem compreendê-la e sem absorvê-la, ou seja: “Há envolvimentos, mas não comprometimentos”! Estavam na doutrina, mas a doutrina nunca esteve neles!
E o comprometimento é consigo mesmo, não terceirizando a tarefa de autoevangelização, pois que no: “Buscai e achareis; batei à porta e se vos abrirá”, a responsabilidade é intransferível; os irmãos do caminho colaborarão, pois “ninguém transforma ninguém e ninguém se transforma sozinho”. (autor desconhecido) Ressalte-se que a complementação deste ensinamento evangélico é: “Ajuda-te e o Céu te ajudará.”
Protelamos tanto o nosso despertamento, que nos transformamos (segundo Chico Xavier, numa tirada do seu característico bom humor) em “Cristãos tocados à cachorros”, como a velha ovelha desgarrada que depois de várias vezes trazida amorosamente nos braços do pastor, este, por fim, dado à rebeldia daquela, manda seus cães buscá-la à reboque de mordiscadas dolorosas.
A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória!
O espírita não é e nem deve se considerar melhor que os profitentes de outras filosofias; todos estamos a caminho.
"Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas más inclinações”. (Kardec – E.S.E. - XVII, item 3)
Para refletir:
“Não poderás ajudar aos homens de maneira permanente se fizeres por eles aquilo que eles podem e devem fazer por si próprios.” (Abraham Lincoln)