Joel F. de Souza



Penas eternas?

03-05-2012

Piores temores que esses não existem; e tanto isto é verdadeiro quão inversamente proporcional é a falsidade que sob elas se oculta, porquanto mais os representantes religiosos judaicos-cristãos-muçulmanos clamam-nas, menos os fiéis nelas falam, aturdidos-perturbados com as perspectivas lúgubres de nelas poderem soçobrar. Sim, estou falando das famigeradas e não menos apavorantes “penas eternas”, as quais se não espavorizam todos, pelo menos mais do que a metade da população planetária, pois não são os judeus, católicos, muçulmanos, e protestantes que, somados, correspondem a mais de 3,5 bilhões de almas?

Ora, sabemos que o medo é a mais elevada, dentre todas as emoções que nos dominam, porque nos paralisa mental e fisicamente, posicionando-se em oposição à vida e à exuberância de viver, os dois valores máximos para o homem. E tanto isto é verdadeiro que o Direito e a Medicina só têm como objeto a finalidade da sua preservação. Disso decorre que se pensa e segue-se o seguinte: não se encontra tal “conservação da vida” em contraposição com a doutrina das “penas eternas”? Mas, diz e aceita o rebanho: se os livros sagrados anotaram-nas dogmaticamente, então assim será porque assim tem que ser, uma vez que DEUS não mente e a Bíblia é a “palavra de DEUS”.

Então perguntamos: o que dizer da fé inconsistente e inconsciente dessa massa em DEUS-Criador? Crêem n’“Ele”, é verdade, todavia são totalmente desconhecedores das origens de sua fé. E o pior: quando os rebanhos daqueles “representantes religiosos de DEUS na Terra” junto aos homens, questionam-nos sobre as dúvidas perfeitamente naturais quanto ao porvir humano depois da morte, obtêm respostas como esta: “O que você quer saber não lhe pode ser dito por ser um dos grandes mistérios da fé, é um arcano, e não é bom perguntar nem pensar sobre isto porque pode ser-lhe perigoso e, por sua vez, você deve estar sob a posse da malévola influência do, você bem sabe, ‘Chifrudo’. Fale baixo!”. E a pobre ovelha, coitada, sai deste micro diálogo com a mais aberrante expressão de horror estampada em sua face.

Todavia ocorreu que os “representantes de DEUS na Terra” explicaram o que não sabem pelo que sabem menos ainda, visto aqueles livros começarem afirmando – sempre dogmaticamente – a existência de DEUS para, em seguida, concluir pelas “penas eternas”. Mas por que têm que ser “eternas”? Porque um mínimo delito cometido contra a Máxima Autoridade, DEUS, só pode merecer a condenação máxima, qual seja, “eterna”, respondem-nos. Mas a História contrapõe-se a esta resposta vazia por haver disposto de mais de dois mil anos para evoluir e assim o fez e, por isso, nem todos pensam mais daquele modo ultrapassado.

Quero com isto dizer que, não obstante continuar a crer em DEUS, crêem-nO por motivos diferentes, isto é, DEUS agora não pode mais ser acreditado como um sobre-humano que num momento se alegre para, no momento seguinte, irar-se contra Sua Criação: ora DEUS é bom e amoroso; ora é mau e vingativo; ora está arrependido e desfaz os antigos pactos selados para, no momento seguinte, contrapactuar, novamente, com o homem – leia o livro “Gênesis” para conferir –; pactos, aliás, por “Ele” mesmo idealizados e instituídos. Dá para crer nisso ou você não sente alguma estranheza?

Para nós, espíritas, os que raciocinamos para só depois termos fé, invertendo assim o paradigma deixado por AGOSTINHO de Hipona (354/430), denominado “O Santo da Inteligência”, não cremos como pode o único Ser Infinito e Perfeitamente Justo ser bom para uns e mau para outros ao mesmo tempo e na mesma relação. O problema, neste caso, nem é de fé mas antes de simples razão, pois esta não pode aceitar que ser algum seja e não seja ao mesmo tempo e na mesma relação. Só isto. Crer no contrário será afirmar um absurdo lógico carecente de validade.

Afirmam, aqueles dogmáticos da “palavra”, que “a fé não se explica porque trata-se dum princípio doutrinário da Igreja”; mas então perguntamos: se é assim, então para quais atividades DEUS nos dotou com as faculdades da razão e da inteligência que nos asseguram o galardão de sermos “homens”? Para nada? Logo, como deveremos proceder para que a idéia das “penas eternas” seja afastada definitivamente do mundo moral-religioso?

Para se chegar à conclusão de DEUS estar impossibilitado de ser bom e mau, torna-se necessário “ter fé na razão e ousar saber”, como pregou o insigne filósofo alemão IMMANUEL KANT (1724/1804) em seu princípio iluminista. Todavia os obstinados “representantes divinos” defendem seus dogmas que, por tais defesas, acabam por se tornar grandes obstáculos às idéias novas que, seja dito, são as que sempre impulsionam o mundo à frente. Daí uma de duas: ou DEUS é bom ou DEUS é mau, o que nos leva a não termos outra alternativa senão a de perguntar: se DEUS é perfeitamente bom e mau, então é DEUS a causa da introdução do Mal no mundo! Advém disso que o homem não é mau porque quer mas sim porque não consegue escapar da fatalidade de ser mau e, portanto, deve ser inocentado. Ato seguinte: que se prenda e acorrente DEUS em seu devido lugar, no Inferno! É um exagero, é certo, porém não é menos lógico caso sigamos o ensinamento das “penas eternas”. Entretanto a natureza humana se revolve à existência delas porque ninguém as merece, por pior que seja, caso contrário a mãe amorosa que visita todos os domingos no presídio o seu filho homicida, terá que ser mais misericordiosa do que DEUS! Outro absurdo. Veja no que dá construir uma religião em bases tão frágeis! Teria o Criador nos criado para isto? Será que em Sua Inteligência, Onipotência, e Onisciência, não pôde ver que o homem seria, é, e será, por natureza, falível? E se concordamos todos nesta proposição, por que atribuirmos a “maldade eterna” a DEUS? Isso seria contraditório.

Urgia, no caso, fazer a Sua teodiceia a fim de justificar a bondade divina, o que apenas ocorreu no XVIII com o lançamento d’“O Livro dos Espíritos” por ALLAN KARDEC, o 1º homem espírita do mundo.


Joel F. de Souza
bigjoel@terra.com.br

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