Joel F. de Souza



Dever, Consciência, Liberdade, Espírito e Deus

14-04-2012

Quando, IMMANUEL KANT (1724/1804), o venerável apóstolo da Filosofia, concluiu sua mais famosa obra, “A Crítica da Razão Pura”, em 1781, concluiu também, e definitivamente, um capítulo que, pela sua grandiosidade, tornou-se o auge dos pensamentos racionalista e empirista, colocando-lhes um parágrafo finalista: o de que a razão, considerada em si mesma, jamais dispôs de instrumentação adequada ao seu intento máximo: quaisquer gnoses religiosas com relação às existências dos entes DEUS, alma, e universo, aprofundando, ao limite, o fosso separador entre essas duas regiões do conhecimento humano: o lógico-filosófico-natural-condicionado-dependente e o revelado-religioso-sobrenatural-incondicionado-absoluto. Aqueles entes, à luz do saudável entendimento esquematista-criticista, nunca mais poderiam ser considerados “conhecimentos” por suas demonstrações serem impossíveis “além dos estudos físicos”, isto é, referentes à natureza extrafísica, porquanto a Metafísica era um saber transcendente ao saber físico, ou “natural”, daqueles “absolutos-incondicionados” independentes doutros seres para poderem existir pois eram, todos, em-si. Ocorrera uma verdadeira “revolução copernicana” no interior da Filosofia e, em consequência, dera-se, pelo modelo kantista, o encerramento do combate intelectual, milenar, cujo resultado fora a derrota da Metafísica como saber científico possível e a vitória dos agnósticos.

Porém se a Metafísica não foi possível pela via teorética-especulativa, talvez possa ser por outra, uma vez que, igualmente, existe no âmbito da vida humana outros fatos, como o da consciência/sentimento moral, por exemplo, ou dito doutro modo, da razão prática, porquanto os homens ajustam suas condutas por princípios morais-racionais evidentes os quais a razão raciocinante se ajusta, como: “bom; mau; pecado; virtude; moral; imoral; etc.”, todos predicativos qualificativos morais que adjudicamos às coisas mas que não pertencem a elas na medida em que as coisas são-lhes indiferentes. Tenciono com isso dizer que as coisas não são boas nem más, morais nem imorais, pecaminosas nem virtuosas, exceto o homem, pois se é o homem quem realiza atos fazendo algo, então nestes podemos distinguir dois elementos:

1º) Aquilo que o homem faz; e

2º) Aquilo que o homem quer fazer.

Isso posto aqueles predicados morais não dizem respeito à matéria do ato feito – à ação mecânica em si mesma – mas sim ao que o homem quis fazer. Por exemplo: num assassinato há o ato assassino e, simultaneamente, a intenção/vontade do ato: seu autor não é bom nem mau por ser o ato mecânico, logo, irracional; entretanto não podemos afirmar o mesmo sobre o conteúdo do ato, digo, sua vontade, por esta ser intencional. Consequentemente o único ente bom ou mau é a vontade porque apenas ela tem a opção de ser boa ou má.

Sendo assim em que consiste a vontade boa? Consiste em ser livre, em não agir escravizada, ou melhor, em não agir visando ser recompensada ou castigada, qual seja, em não agir condicionada pelo algo-objeto da recompensa ou castigo advindo da ação feita. Ora, justamente por isso fica implícito que o ato moral não foi puro por haver sido transformado em meio – e não em fim em si mesmo – de ser recompensado ou castigado. Enfim uma vontade é boa quando o seu sujeito não age pelo conteúdo da ação, seja este qual for, mas sim por dever. Resulta deste amassilho que, por um lado, a vontade será heterônoma quando o seu agir implicar num agir empírica e passivamente por outrem – ou “a posteriori” – do qual recebe a lei da sua ação; mas, por outro lado, será autônoma quando aquele agir implicar em agir inata e ativamente por si mesma – ou “a priori” –, isto é, quando ela der a lei a si mesma.

Na História, diga-se, sempre prevaleceu, e necessariamente, a vontade heterônoma por causa das consequências dos atos os quais o homem sempre se ajustou, seja pelas consequências dos castigos-penas ou pelas recompensas-prêmios a partir de mandamentos... Então, ao fim e ao cabo, quer isso dizer que mesmo quando o homem age por obediência aos “10 Mandamentos”, sua vontade é heterônoma por não agir por si própria mas sim pelo pavor das punições divinas; todavia, pelo contrário, ela será autônoma-livre quando a lei promanar puramente dela mesma.

Do acima decorre que a lei moral pura não pode ser do tipo “faça isto ou aquilo o qual respeito” mas sim do tipo “o que quer que eu faça que o faça por respeito à lei moral” cujo conteúdo não pode mais se encontrar no topo empírico nem no topo metafísico religioso judaico-cristão determinado mas sim na consciência moral, local onde residem aqueles predicativos morais ajustados não à do conceito de lei mas sim na lei mesma. Quero dizer: “Que eu aja de tal modo que o princípio que me leva a agir eu possa querer que seja uma lei universal”, qual seja, com liberdade – essência da vontade –, porquanto a vontade boa é autônoma-livre, ou seja, uma vontade moral boa ou má, não escravizada à “lei de causa e efeito” referente às existências dos fenômenos materiais.

Avulta então, nesse sentido, que o ente moral absoluto-não-condicionado é a vontade boa-livre-autonômica e que sem essa não poderá existir moralidade alguma. Eis aqui, finalmente, o puro “objeto” metafísico, a consciência moral do eu-sujeito-agente de valores o qual é transcendental por escapar os tempo e espaço e ter como seus fundamentos as liberdade e imortalidade. E o que tem o Espiritismo a ver com isso tudo? Reproduzamos a Pergunta 621 d’“O Livro dos Espíritos” a fim de sabermos: “Onde está escrita a Lei de DEUS? Resposta: Na consciência”. O que isso quer dizer? Significa que o eu moral transcendental, oriundo daquele “criticismo transcendental”, é a consciência moral, ou o espírito moral, ou a vontade moral, ou a consciência moral, por serem, todos, entes livres e, por isso mesmo, imortais. E se o homem for purificando cada vez mais sua vontade livre, então cumprir-se-á nele o que KANT denominou de “santidade” porque, apenas no santo, todos os fenômenos físicos se subordinam à lei moral supremamente pura.

E o que mais? Na Pergunta 621 encontramos que “A lei de DEUS está escrita na consciência”; na Pergunta 629 temos que “A Moral é a regra de bem proceder”; e na Pergunta 658 fomos informados de que “... para DEUS a intenção/vontade é tudo”.

Você ainda vai continuar ignorando que a Filosofia tem tudo a ver com a Doutrina Espírita?


Joel F. de Souza
bigjoel@terra.com.br

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